Por Sócrates
É duro admitir, mas aconteceu. Ao longo desses 40 anos, nunca vacilei, mas, desta vez não deu. E não é culpa dela. Na verdade, na verdade, ela é novinha, novinha, aguenta qualquer um. Pode ser velho, adolescente. Pau para toda obra. Só que na hora de engatar a primeira troquei os pés pelas mãos e arranhei a marcha. Estourou o motor da minha motocicleta por causa de um descuido besta. Anos de carteira de motorista jogados fora. Jamais esquecerei deste dia. Agora sou um homem impotente.
Diariamente, um desafio é lançado: uma palavra, apenas uma, que seja capaz de mexer com a criatividade desses oito escritores. Eles deixam os dedos correr no teclado, livres e descomprometidos. O resultado? Uma poesia, uma crônica, um haikai, um conto... Enfim, o que a inspiração deixar. O blog é isso, um convite à criatividade, provocada todos os dias, no finalzinho do expediente.
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sexta-feira, 20 de março de 2009
terça-feira, 10 de março de 2009
Por Sócrates
Uma fumaça lilás. Restam poucas lágrimas, apenas um suor colorido pela tintura opressiva do capitalismo. A doçura das manhãs derrete-se entre os vestidos e os seios impávidos das mulheres. O noticiário local informa o fim da greve e esquece os motivos da paralização."Um salário justo" teriam dito se pudessem. Sem espaço, sobrou a fumaça lilás e uma última homenagem. Uma mensagem que encobriu o céu clandestinamente, sem a permissão dos algozes patrões. Todas morreram. Não tem mais café fresquinho, tão pouco o beijo macio acompanhado por uma canção de ninar. Felizmente, um último suspiro. Lilás.
Uma fumaça lilás. Restam poucas lágrimas, apenas um suor colorido pela tintura opressiva do capitalismo. A doçura das manhãs derrete-se entre os vestidos e os seios impávidos das mulheres. O noticiário local informa o fim da greve e esquece os motivos da paralização."Um salário justo" teriam dito se pudessem. Sem espaço, sobrou a fumaça lilás e uma última homenagem. Uma mensagem que encobriu o céu clandestinamente, sem a permissão dos algozes patrões. Todas morreram. Não tem mais café fresquinho, tão pouco o beijo macio acompanhado por uma canção de ninar. Felizmente, um último suspiro. Lilás.
segunda-feira, 9 de março de 2009
A PALAVRA DE HOJE É... COLAR
Por Sócrates
Avistei o universo inteiro dentro dele
Apanhei cada pérola
Costurei cada uma
Amarrei cada pedra
Avistei o inferno inteiro dentro dele
Cutuquei a sua nuca
Acariciei a sua boca
Rasguei a sua roupa
Estou no mar
Estou no infinito
Apenas o corpo e o colar
Como se fossem um olhar
Como se bastasse amar
Primeiro, o colar
Depois o corpo
E enfim, o mar
Avistei o universo inteiro dentro dele
Apanhei cada pérola
Costurei cada uma
Amarrei cada pedra
Avistei o inferno inteiro dentro dele
Cutuquei a sua nuca
Acariciei a sua boca
Rasguei a sua roupa
Estou no mar
Estou no infinito
Apenas o corpo e o colar
Como se fossem um olhar
Como se bastasse amar
Primeiro, o colar
Depois o corpo
E enfim, o mar
terça-feira, 3 de março de 2009
Por Sócrates
A saia da moça revelava o interior dela. Logo abaixo do umbigo. Os rapazes deitavam no chão, remexiam as cadeiras, se contorciam para enxergar até a alma da garota. Alguns diziam:
- Vou para o inferno por ela.
- Até o Alasca.
- Ai meu Deus!
Na esquina, logo após o bondinho passar, uma brisa, daquelas do sul, soprou como se advinhasse os desejos viris da moçada. Alguém arriscou:
- Esse vento é macho.
- Bonitinha mais ordinária.
- Nossa Senhora!
Sem graça, a donzela virou a esquina e foi pega de surpresa pelo namorado. Por acaso você está na Bahia para andar deste jeito na rua.
- Você tá me chamando de quê?
Sem graça, o gaúcho tentou explicar mais só piorou a situação.
- É que na Bahia as mulheres são mais calorentas.
- Sulista filho da puta.
- Splac!
A saia da moça revelava o interior dela. Logo abaixo do umbigo. Os rapazes deitavam no chão, remexiam as cadeiras, se contorciam para enxergar até a alma da garota. Alguns diziam:
- Vou para o inferno por ela.
- Até o Alasca.
- Ai meu Deus!
Na esquina, logo após o bondinho passar, uma brisa, daquelas do sul, soprou como se advinhasse os desejos viris da moçada. Alguém arriscou:
- Esse vento é macho.
- Bonitinha mais ordinária.
- Nossa Senhora!
Sem graça, a donzela virou a esquina e foi pega de surpresa pelo namorado. Por acaso você está na Bahia para andar deste jeito na rua.
- Você tá me chamando de quê?
Sem graça, o gaúcho tentou explicar mais só piorou a situação.
- É que na Bahia as mulheres são mais calorentas.
- Sulista filho da puta.
- Splac!
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
A PALAVRA DE HOJE É... GRAMPO
Por Sócrates
- Vossa excelência.
- Ora, ora.
- Como vai?
- Bem. Muito bem. A que devo tamanha reverência?
- Gostaria de conversar sobre a Operação Corre-Corre Calango.
- O senhor vai realizar alguma operação na fazenda.
- Em todos os calangos da fazenda de vossa excelência..
- Compreendo, compreendo. Mas, como você sabe "as coisas só engordam com o olho do dono".
- Mas, vossa excelência.
- Até mais tarde. Tratamos deste assunto pessoalmente.
Um gesto rápido pois fim ao telefonema. Pegou o celular e telefonou para a Polícia Federal.
- Sei que vocês ouviram a minha conversa, por isso, estou ligando para explicar e denunciar todo o contexto da Operação Corre-Corre Calango.
- Mas, vossa excelência, não podemos revelar o conteúdo da Operação Na Moita.
- Nada disso. Depois a Operação Esconde Esconde estoura e vai sobrar para mim.
- Mas, a Operação Na Moita não tem qualquer relação com a Operação Esconde Esconde.
- É o que você pensa meu rapaz.
- Mas, vossa excelência. Se vossa excelência denunciar a Operação Corre Corre Calango, a Operação Na moita cai por terra.
- Mas, é isso mesmo que eu quero que aconteça.
O senador desligou e na sala ao lado uma equipe técnica da Operação De Baixo do Pano comemora o depoimento do parlamentar.
- Vossa excelência.
- Ora, ora.
- Como vai?
- Bem. Muito bem. A que devo tamanha reverência?
- Gostaria de conversar sobre a Operação Corre-Corre Calango.
- O senhor vai realizar alguma operação na fazenda.
- Em todos os calangos da fazenda de vossa excelência..
- Compreendo, compreendo. Mas, como você sabe "as coisas só engordam com o olho do dono".
- Mas, vossa excelência.
- Até mais tarde. Tratamos deste assunto pessoalmente.
Um gesto rápido pois fim ao telefonema. Pegou o celular e telefonou para a Polícia Federal.
- Sei que vocês ouviram a minha conversa, por isso, estou ligando para explicar e denunciar todo o contexto da Operação Corre-Corre Calango.
- Mas, vossa excelência, não podemos revelar o conteúdo da Operação Na Moita.
- Nada disso. Depois a Operação Esconde Esconde estoura e vai sobrar para mim.
- Mas, a Operação Na Moita não tem qualquer relação com a Operação Esconde Esconde.
- É o que você pensa meu rapaz.
- Mas, vossa excelência. Se vossa excelência denunciar a Operação Corre Corre Calango, a Operação Na moita cai por terra.
- Mas, é isso mesmo que eu quero que aconteça.
O senador desligou e na sala ao lado uma equipe técnica da Operação De Baixo do Pano comemora o depoimento do parlamentar.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Por Sócrates*
O dia da cidade baixa
O sol revelava uma manhã de maré vazia na capital dos absurdos. As mães acordavam as crianças, batiam palmas para os erês e acendiam uma vela para o santo e outra para o orixá da vez. As crendices da velha Bahia ainda perduravam da Capelinha de São Caetano ao Alto do Itaigara. Os homens voltavam do boteco, após uma rodada de cachaça e um prato da tradicional feijoada das cinco. Sem mais cerimônias, as baianas fritavam o acarajé de Exu e os filhos de santo arrastavam o bloco afro pela avenida sete. Pouco a pouco uma multidão encobria a Praça da Sé para olhar o vasto oceano do alto do Elevador Lacerda. O carnaval anunciava a festa de yemanjá, que ganhou novos afazeres após a onda vermelha que arrasou por inteira a lendária cidade baixa. O Mercado Modelo, o Forte de São Marcelo, o Solar do Unhão, a Ladeira da Montanha, o Terminal da França, a Feira de São Joaquim, os faróis e os calçadões de Itapuã e da Barra, as Sete Portas, parte da Avenida Paralela, o entorno do estádio de Pituaçu, a Boca do Rio, o Largo da Mariquita, a Ribeira, e todos os edifícios do Plano Diretor construídos na calada da noite na Câmara de Vereadores se foram como a utópica cidade perdida de Atlântida. Tudo que era sólido, cotidiano, virou pedra mole, ou simplesmente água. A Baía de Todos os Santos se deixou enganar pela brisa suave da maresia e pelo conforto passageiro das barracas de alvenaria. As turísticas praias agora são páginas de livros e estórias de anciãs analfabetas.
Mas, pela força divina das vigílias das comunidades evangélicas, as quermesses e novenas das beatas católicas, as oferendas tardias das religiões de matriz africana a Exu, e os recursos desviados de obras públicas para o soerguimento de uma eclusa, a maior do mundo, uma vez por ano, justamente no período do Carnaval, os filhos de Oxalá, Deus, Jeová, vivem novamente os ares da inarrável cidade baixa. A prática de saciar a fome com pão e circo também não se perdeu. Mudam os cães, permanecem as coleiras.
Uma vez por ano uma centena de embarcações é suspensa por um elevador, que esvazia um imenso território ocupado pelo oceano através de duas comportas. A primeira localizada na antiga Base Naval de Aratu; a segunda, na derradeira Lagoa do Abaeté.
Os terminais de ônibus aglomeram uma massa de pescadores, um novo costume adotado pelos homens baianos, que ao contrário do passado trocaram os abadas de outrora por uma rede e uma vara de pescar. Tudo fornecido pela prefeitura. Trata-se de uma política de resgate dos valores de uma época esquecida, quando os saveiros ainda eram importantes e as puxadas de rede um bem cultural. Os camarotes, andantes ou não, se adaptaram a nova realidade e se tornaram flutuantes, balsas banhadas por muita badalação e celebridades além mar.
Nas folhas repetitivas dos jornais, intelectuais e pseudo-intelectuais elogiavam a capacidade inventiva da população, que re-significava hábitos e dava novos sentidos aos rituais. O certo é que o trânsito continuava caótico e a paisagem cinza dos operários do metrô desenhava no céu de urubus os infindáveis "últimos reparos" da obra faraônica iniciada no século passado. A ladeira da preguiça estava veloz, tomada por uma quantidade incontável de pernas e braços. Para muitos, andar de quatro vinha bem a calhar. E o poeta, Castro Alves, salve, salve, chorava o destino desta absurda Bahia dos camburões e das empreiteiras. Apontava para o mar como quem acaricia Oxalá e diz: "'Stamos em pleno mar. Embaixo, o mar em cima, o firmamento. E no mar e no céu, a imensidade!". Estamos em pleno mar, Oxalá bebendo, Exu sedento e o baiano de Gregório de Matos carnaval adentro, fudendo.
*Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista.
Obs: uma homenagem aos baianos e uma crítica ao Plano Diretor de Salvador.
O dia da cidade baixa
O sol revelava uma manhã de maré vazia na capital dos absurdos. As mães acordavam as crianças, batiam palmas para os erês e acendiam uma vela para o santo e outra para o orixá da vez. As crendices da velha Bahia ainda perduravam da Capelinha de São Caetano ao Alto do Itaigara. Os homens voltavam do boteco, após uma rodada de cachaça e um prato da tradicional feijoada das cinco. Sem mais cerimônias, as baianas fritavam o acarajé de Exu e os filhos de santo arrastavam o bloco afro pela avenida sete. Pouco a pouco uma multidão encobria a Praça da Sé para olhar o vasto oceano do alto do Elevador Lacerda. O carnaval anunciava a festa de yemanjá, que ganhou novos afazeres após a onda vermelha que arrasou por inteira a lendária cidade baixa. O Mercado Modelo, o Forte de São Marcelo, o Solar do Unhão, a Ladeira da Montanha, o Terminal da França, a Feira de São Joaquim, os faróis e os calçadões de Itapuã e da Barra, as Sete Portas, parte da Avenida Paralela, o entorno do estádio de Pituaçu, a Boca do Rio, o Largo da Mariquita, a Ribeira, e todos os edifícios do Plano Diretor construídos na calada da noite na Câmara de Vereadores se foram como a utópica cidade perdida de Atlântida. Tudo que era sólido, cotidiano, virou pedra mole, ou simplesmente água. A Baía de Todos os Santos se deixou enganar pela brisa suave da maresia e pelo conforto passageiro das barracas de alvenaria. As turísticas praias agora são páginas de livros e estórias de anciãs analfabetas.
Mas, pela força divina das vigílias das comunidades evangélicas, as quermesses e novenas das beatas católicas, as oferendas tardias das religiões de matriz africana a Exu, e os recursos desviados de obras públicas para o soerguimento de uma eclusa, a maior do mundo, uma vez por ano, justamente no período do Carnaval, os filhos de Oxalá, Deus, Jeová, vivem novamente os ares da inarrável cidade baixa. A prática de saciar a fome com pão e circo também não se perdeu. Mudam os cães, permanecem as coleiras.
Uma vez por ano uma centena de embarcações é suspensa por um elevador, que esvazia um imenso território ocupado pelo oceano através de duas comportas. A primeira localizada na antiga Base Naval de Aratu; a segunda, na derradeira Lagoa do Abaeté.
Os terminais de ônibus aglomeram uma massa de pescadores, um novo costume adotado pelos homens baianos, que ao contrário do passado trocaram os abadas de outrora por uma rede e uma vara de pescar. Tudo fornecido pela prefeitura. Trata-se de uma política de resgate dos valores de uma época esquecida, quando os saveiros ainda eram importantes e as puxadas de rede um bem cultural. Os camarotes, andantes ou não, se adaptaram a nova realidade e se tornaram flutuantes, balsas banhadas por muita badalação e celebridades além mar.
Nas folhas repetitivas dos jornais, intelectuais e pseudo-intelectuais elogiavam a capacidade inventiva da população, que re-significava hábitos e dava novos sentidos aos rituais. O certo é que o trânsito continuava caótico e a paisagem cinza dos operários do metrô desenhava no céu de urubus os infindáveis "últimos reparos" da obra faraônica iniciada no século passado. A ladeira da preguiça estava veloz, tomada por uma quantidade incontável de pernas e braços. Para muitos, andar de quatro vinha bem a calhar. E o poeta, Castro Alves, salve, salve, chorava o destino desta absurda Bahia dos camburões e das empreiteiras. Apontava para o mar como quem acaricia Oxalá e diz: "'Stamos em pleno mar. Embaixo, o mar em cima, o firmamento. E no mar e no céu, a imensidade!". Estamos em pleno mar, Oxalá bebendo, Exu sedento e o baiano de Gregório de Matos carnaval adentro, fudendo.
*Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista.
Obs: uma homenagem aos baianos e uma crítica ao Plano Diretor de Salvador.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
A PALAVRA DE HOJE É...GUERRILHA
Por Sócrates
Um homem sozinho é uma idéia solta. Um vento que passa. Um sopro. Uma poesia.Diante das trevas dos dias, deixei o suor descansar nas ventas. Respirei.Parei um instante perante a tela.Sufoquei sem sentir sílabas sintomáticas. E engoli em pequenas doses anos de angústia.Driblei o fim do dia e encontrei a existência das coisas sem sentido.Tentei procurar os significados, mas, aceitei a derrota para o inevitável.Restou tempo, sobrou tempo. Que fazer?Guerrilha.Neurônios cybernéticos invadiram a tela. Viraram isto.Percebi que não tomei as palavras. Não são minhas, não são suas.De quê valeu a guerrilha?Um assalto. Pouco, é verdade.Mas, valeu. Valeu sentir as sílabas tomando a tela e dizendo:"São minhas. São nossas".Se as palavras são "o poder", então sempre serei o poeta das guerrilhas.
Um homem sozinho é uma idéia solta. Um vento que passa. Um sopro. Uma poesia.Diante das trevas dos dias, deixei o suor descansar nas ventas. Respirei.Parei um instante perante a tela.Sufoquei sem sentir sílabas sintomáticas. E engoli em pequenas doses anos de angústia.Driblei o fim do dia e encontrei a existência das coisas sem sentido.Tentei procurar os significados, mas, aceitei a derrota para o inevitável.Restou tempo, sobrou tempo. Que fazer?Guerrilha.Neurônios cybernéticos invadiram a tela. Viraram isto.Percebi que não tomei as palavras. Não são minhas, não são suas.De quê valeu a guerrilha?Um assalto. Pouco, é verdade.Mas, valeu. Valeu sentir as sílabas tomando a tela e dizendo:"São minhas. São nossas".Se as palavras são "o poder", então sempre serei o poeta das guerrilhas.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
A PALAVRA DE HOJE É... ENCABULADA
Por Sócrates
Na contramão da rótula do abacaxi. Imaginem só, a menina, uma daquelas piriguetes da avenida sete, inventa de procurar conversa com o cobrador. O motorista - cabra cheio de história e esculhambado - falou para o cobrador deixar a menina passar sem muito cheiro mole, mas, o cobrador avisou:
- Ou dá ou desce?
A menina explicou que não dava e que o corno do namorado dela ia ficar sabendo da ousadia do cobrador.
- Você é cheia de história viu menina
- Aonde que dou para você.
- Aonde, aonde você vai ver aonde.
Desceu toda remelexida do ônibus, antes do motorista gritar boazuda.
Encabulada, subiu a ladeira do Cabula na terceira e avisou:
- Tá rebocado que vou fuder com esse cobrador. Eu vou lenhar com ele. Ele vai ver o dele.
Obs: fuder significa vingança na Bahia. Também.
Na contramão da rótula do abacaxi. Imaginem só, a menina, uma daquelas piriguetes da avenida sete, inventa de procurar conversa com o cobrador. O motorista - cabra cheio de história e esculhambado - falou para o cobrador deixar a menina passar sem muito cheiro mole, mas, o cobrador avisou:
- Ou dá ou desce?
A menina explicou que não dava e que o corno do namorado dela ia ficar sabendo da ousadia do cobrador.
- Você é cheia de história viu menina
- Aonde que dou para você.
- Aonde, aonde você vai ver aonde.
Desceu toda remelexida do ônibus, antes do motorista gritar boazuda.
Encabulada, subiu a ladeira do Cabula na terceira e avisou:
- Tá rebocado que vou fuder com esse cobrador. Eu vou lenhar com ele. Ele vai ver o dele.
Obs: fuder significa vingança na Bahia. Também.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Por Sócrates
Minha nega não fala comigo desde primeiro de janeiro
Ela se manda pra farrar, eu fico em casa, fico de copeiro
Ela tá emburrada, de cara fechada, não dá nem um cheiro
E quando vou pra pelada, ela fica danada, fico no chuveiro
Ela finge que não, mas no seu coração ainda sou artilheiro
Mas, acontece que na hora do gol eu sou Bahia e ela é rubro-negro
Sai de centrovante, pra médio volante, agora sou zagueiro
No dia de domingo, não tem feijoada, a casa é um vespeiro
A nega não fala, meu peito se rasga, pareço goleiro
E quando vou pra pelada, ela fica danada, fico no chuveiro
Ela finge que não, mas no seu coração ainda sou artilheiro
Mas, acontece que na hora do gol eu sou Bahia e ela é rubro-negro
Minha nega não fala comigo desde primeiro de janeiro
Ela se manda pra farrar, eu fico em casa, fico de copeiro
Ela tá emburrada, de cara fechada, não dá nem um cheiro
E quando vou pra pelada, ela fica danada, fico no chuveiro
Ela finge que não, mas no seu coração ainda sou artilheiro
Mas, acontece que na hora do gol eu sou Bahia e ela é rubro-negro
Sai de centrovante, pra médio volante, agora sou zagueiro
No dia de domingo, não tem feijoada, a casa é um vespeiro
A nega não fala, meu peito se rasga, pareço goleiro
E quando vou pra pelada, ela fica danada, fico no chuveiro
Ela finge que não, mas no seu coração ainda sou artilheiro
Mas, acontece que na hora do gol eu sou Bahia e ela é rubro-negro
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Por Sócrates (texto 2)
Em tudo reside a maldade. Uma névoa de dúvida sobre o caráter de um amigo. Um inimigo próximo, vivo, sagaz e rasteiro. Entre o sentido e o significado a palavra dribla a compreensão da razão e nas entrelinhas da loucura revela a surpresa das cenas inesperadas, contidas, retidas no breú das horas sem saída, sem ponteiro, sem data marcada. É como um susto. És tu, então? Finalmente, revelou a verdadeira face. Nunca se sabe. Às vezes nem o tempo escapa. Resta a sombra. A traidora. Sempre ao lado. Engana a leveza da lua e o brilho do sol. Esconde o que deveria ser visto a olho nú. Mas, olhe, preste atenção. Nela reside todas as coisas importantes sobre alguém. E se numa dessas manhãs cinzas não percebê-la...cuidado. O diabo está no canto, como quem ri sozinho, como quem aguardo o momento exata para cobrar uma dívida. O pior momento. O pacto está feito e o endividado fará qualquer coisa para sanar essa dívida, interminável, impagável. Para sempre será apenas uma sombra. Cinza, imprecisa e fulgaz.
Em tudo reside a maldade. Uma névoa de dúvida sobre o caráter de um amigo. Um inimigo próximo, vivo, sagaz e rasteiro. Entre o sentido e o significado a palavra dribla a compreensão da razão e nas entrelinhas da loucura revela a surpresa das cenas inesperadas, contidas, retidas no breú das horas sem saída, sem ponteiro, sem data marcada. É como um susto. És tu, então? Finalmente, revelou a verdadeira face. Nunca se sabe. Às vezes nem o tempo escapa. Resta a sombra. A traidora. Sempre ao lado. Engana a leveza da lua e o brilho do sol. Esconde o que deveria ser visto a olho nú. Mas, olhe, preste atenção. Nela reside todas as coisas importantes sobre alguém. E se numa dessas manhãs cinzas não percebê-la...cuidado. O diabo está no canto, como quem ri sozinho, como quem aguardo o momento exata para cobrar uma dívida. O pior momento. O pacto está feito e o endividado fará qualquer coisa para sanar essa dívida, interminável, impagável. Para sempre será apenas uma sombra. Cinza, imprecisa e fulgaz.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
A PALAVRA DE HOJE É... PLANILHA
Por Sócrates
Faltavam dez segundos para bater o ponto. Érica passou o cartão. Abriu a sala e esperou o secretário de governo entrar porta adentro. Pumm!
- Ligue para a prefeita.
Gritou da sala. Érica pegou o telefone e ligou para o secretário. Perguntou:
- O senhor quer falar comigo secretário?
- Eu pedi para você ligar para a prefeita.
- Pois não.
Desligou o telefone. Ligou para o gabinete da prefeita e transferiu a ligação. Vinte minutos depois o secretário saiu correndo pelo corredor esbravejando.
- Cadê a porra da planilha?
Chegou a hora do almoço. Uma hora de descanso. Dona Érica pegou a marmita e esquentou no micro-ondas da copa. Dormiu dez minutos e votou para a sala. O secretário chegou e pediu para Dona Érica telefonar novamente para a prefeita.
- Não encontrei a planilha prefeita.
- É um projeto de milhões secretário.
- Pois prefeita. Não encontrei a porra da planilha.
- Isso são termos secretário.
- Desculpas, prefeita.
- Desculpas não vão resolver o nosso problema secretário.
- Mas, será...
- O senhor me sugere alguma coisa secretário. Passar bem então.
No outro dia o secretário de governo assinou o pedido de exoneração da prefeita. Ele seria o exonerado.
Mais tarde, o novo secretário ocupou a pasta.
- Dona Érica, por favor, a senhora poderia relacionar o conjunto de ações desta secretaria?
- Pois não secretário.
- Desde já, obrigado Dona Érica pela destreza.
- É apenas o meu dever secretário.
Mais tarde o secretário se depara com o principal motivo da exoneração do ex-secretário. A Planilha estava com Dona Érica.
- Dona Érica?
- Pois não secretário.
- Cadê a Planilha?
- Na sua mesa secretário.
- Mas, Dona Érica. Essa planilha sempre esteve contigo?
- Eu arquivo todos os documentos produzidos pela secretaria senhor.
- Mas, por quais motivos o antigo secretário não detinha esses documentos?
- Ele nunca pediu secretário.
- Obrigado Dona Érica, vou anotar isso.
- Secretário?
- Sim, Dona Érica.
- Mais uma coisa.
- Prossiga.
- Ele nunca pediu com educação secretário.
- Entendi o recado Dona Érica, entendi o recado.
Com o charuto e os pés na mesa o novo secretário pensava:
- Mulheres, mulheres.
Faltavam dez segundos para bater o ponto. Érica passou o cartão. Abriu a sala e esperou o secretário de governo entrar porta adentro. Pumm!
- Ligue para a prefeita.
Gritou da sala. Érica pegou o telefone e ligou para o secretário. Perguntou:
- O senhor quer falar comigo secretário?
- Eu pedi para você ligar para a prefeita.
- Pois não.
Desligou o telefone. Ligou para o gabinete da prefeita e transferiu a ligação. Vinte minutos depois o secretário saiu correndo pelo corredor esbravejando.
- Cadê a porra da planilha?
Chegou a hora do almoço. Uma hora de descanso. Dona Érica pegou a marmita e esquentou no micro-ondas da copa. Dormiu dez minutos e votou para a sala. O secretário chegou e pediu para Dona Érica telefonar novamente para a prefeita.
- Não encontrei a planilha prefeita.
- É um projeto de milhões secretário.
- Pois prefeita. Não encontrei a porra da planilha.
- Isso são termos secretário.
- Desculpas, prefeita.
- Desculpas não vão resolver o nosso problema secretário.
- Mas, será...
- O senhor me sugere alguma coisa secretário. Passar bem então.
No outro dia o secretário de governo assinou o pedido de exoneração da prefeita. Ele seria o exonerado.
Mais tarde, o novo secretário ocupou a pasta.
- Dona Érica, por favor, a senhora poderia relacionar o conjunto de ações desta secretaria?
- Pois não secretário.
- Desde já, obrigado Dona Érica pela destreza.
- É apenas o meu dever secretário.
Mais tarde o secretário se depara com o principal motivo da exoneração do ex-secretário. A Planilha estava com Dona Érica.
- Dona Érica?
- Pois não secretário.
- Cadê a Planilha?
- Na sua mesa secretário.
- Mas, Dona Érica. Essa planilha sempre esteve contigo?
- Eu arquivo todos os documentos produzidos pela secretaria senhor.
- Mas, por quais motivos o antigo secretário não detinha esses documentos?
- Ele nunca pediu secretário.
- Obrigado Dona Érica, vou anotar isso.
- Secretário?
- Sim, Dona Érica.
- Mais uma coisa.
- Prossiga.
- Ele nunca pediu com educação secretário.
- Entendi o recado Dona Érica, entendi o recado.
Com o charuto e os pés na mesa o novo secretário pensava:
- Mulheres, mulheres.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Por Sócrates
O meu suplício é uma palavra de amor.
Uma derradeira mensagem perdida.
De homens e cruzes
De mulheres e lágrimas
O meu suplício é uma idéia de amor
Uma apologética história narrada
De homens e cruzadas
De mulheres e fogueiras
O meu suplício é um sacrifício de amor
Uma herança maldita
De homens e pecados
De mulheres e seus filhos
O meu suplício é um grito de ordem
Uma igreja sem crentes
De mulheres livres
De homens felizes
O meu suplício é uma palavra de amor.
Uma derradeira mensagem perdida.
De homens e cruzes
De mulheres e lágrimas
O meu suplício é uma idéia de amor
Uma apologética história narrada
De homens e cruzadas
De mulheres e fogueiras
O meu suplício é um sacrifício de amor
Uma herança maldita
De homens e pecados
De mulheres e seus filhos
O meu suplício é um grito de ordem
Uma igreja sem crentes
De mulheres livres
De homens felizes
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