Diariamente, um desafio é lançado: uma palavra, apenas uma, que seja capaz de mexer com a criatividade desses oito escritores. Eles deixam os dedos correr no teclado, livres e descomprometidos. O resultado? Uma poesia, uma crônica, um haikai, um conto... Enfim, o que a inspiração deixar. O blog é isso, um convite à criatividade, provocada todos os dias, no finalzinho do expediente.

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segunda-feira, 13 de abril de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... SAXOFONE

Por Gabriela
John Coltrane está mais para histórias de amor do que ACDC.
Mas você me trouxe os dois, assim de surpresa, com a mesma paixão.
Do sofisticado doce saxofone ao intenso duro da guitarra.
Dos dois, aprendo a sacar as sutilezas, a maestria e talento na arte do exímio tocar, a paixão, a virtuose.
Descubro novos sons, outras intensidades, belezas. Vidas repletas, carreiras vitoriosas, selvagens, turbulentas e sensíveis.
E sim, que podem embalar qualquer, a nossa história de amor. Na quietude e na explosão.
John Coltrane e seu saxofone quando a noite pede vinho, um jantarzinho especial e nossos corpos mansos, grudados.
Angus Young e sua guitarra quando a noite pede Famous Grouse, um belisco qualquer e nossos corpos doidos, grudados.
Você me traz tudo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Por Gabriela
Eu conheci damasco quando me desafiei.
Revirei aparências, escarafunchei conceitos, meti o dedo em texturas desconhecidas.
Conversei com o vizinho que aparentava ser a pessoa mais antipática do mundo.
Comprei uma blusa vermelha pra sair do conhecido preto que dominava meu guarda-roupa.
Cortei o cabelo mais curto.
Disse não pra uma convenção familiar que nunca fez minha cabeça.
Comi um damasco.
Eu já perdi gosto demais por preconceito, rigidez.
Hoje me experimento. E tem sido doce.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Por Gabriela
Eu botei o dedo na ferida, indelicada e inábil.
Nem pensei na dor, nem pensei no teu passado, exposto e duro.
Eu te esqueci aquele que não foi meu, que não conheci.
E você não é só o dia de hoje, aqui, comigo.
Acho que posso ter sido cruel sim, mas não percebi. Não desta vez.
Tem conserto?
A minha palavra ferina, o teu peito machucado?

terça-feira, 7 de abril de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... CONSTATAÇÃO

Por Gabriela
Às vezes cai em mim o peso das minhas escolhas. Eu não deveria estar aqui. Ouvindo a voz de um colega de trabalho esquisito que não suporto e me lembra, todos os dias, como o mundo está povoado de gente rasteira e desagradável. Eu deveria estar num país distante, escrevendo um romance, falando outras três línguas. Deveria ter um emprego de alta executiva e ganhar o triplo do que ganho pra poder viajar de férias todos os anos. Ser uma profissional reconhecida na minha área. Ser procurada por outras empresas, ávidas pelo meu passe. Ganhar Leões de Ouro em Cannes. Ter tesão e brilho no olho em cada título que eu criasse, em cada job que me caísse na mão. Não precisar contar o salário pra ver se todas as contas serão devidamente pagas no final do mês. Ter uma tarde de crise existencial tipicamente feminina (de álibi, a TPM) e torrar uma grana em roupas na Zara, na Cori, na Chocolat – sem estourar o limite do cartão e sem o menor arrependimento, ainda que em casa, no meio do closet abarrotado, eu ache que jamais vou ter coragem de usar aquele casaco de couro cor pistache, modernérrimo. Ser ligada nas últimas invenções tecnológicas e mandar emails até debaixo do chuveiro, me conectar com um amigo egocêntrico em viagem espiritual pelo Nepal e saber o que ele está almoçando. E antes de ir para o escritório (horário super flexível de alto escalão), passar pelo salão de beleza mais renomado da cidade pra fazer cabelo, unha, pé, massagem e ouvir fofoquinhas inocentes completamente desconectadas do mundo capitalista corporativo onde transito com a maior naturalidade do mundo! Eu deveria ser aquela pessoa cool que se torna meio referência, sem saber. Uma cabeça! Inteligente, descolada, despreocupada, competente, linda, simples, fashion, antenada, culta, amiga, parceira, independente financeira e emocionalmente, cidadã do mundo – à vontade em Paris, Japão, Boston, São Francisco, Morro de São Paulo, Milão, Rio de Janeiro, São Paulo, Sepang, Penedo, Cambury, Bora Bora enfim milhas e milhas de conforto e adaptação instantânea. Eu deveria não me prender às pequenezas, não me deixar atingir pela imbecilidade e má educação dos milhões de motoristas desta cambada humana que precisa trabalhar do outro lado da cidade feito eu, não ouvir as besteiras e falsidades ao longo das horas que passo trancada no escritório, contando minutos pra poder colocar a cara na rua e respirar um pouco mais fundo e leve. E não, não odeio meu emprego ou a minha vida, ao contrário, me considero uma privilegiada. Mas uma constatação que me veio agora, neste segundo em que escrevo e ouço o colega esquisito que trabalha ao lado: neste segundo, eu não deveria estar aqui. Não, não deveria.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Por Gabriela
Nasceu ali, entre uma parede escorregadia e outra.
Úmido e à mostra. Nu.
Pra todos os olhos, todas as vergonhas, todos os todos.
Um gelado apertado de gargalo estrangulado.
Coisa estranha, brotar dali. Dum árido vidrado de uma garrafa largada no meio da rua.
Sem pra onde nenhum.
Coisa estranha. Nem era sentimento pra se embrenhar assim, em cantos estéreis.
Nem água pra se meter aonde não se vai.
Era larva, mosquito, febre, dengue, dor.
Uma coisa que nem devia.

sábado, 4 de abril de 2009

Por Gabriela
Então eu deitei aqui e vi todas as estrelas. Há céus sem elas. Aqui, proliferam.
E minha cabeça encostada na terra me lembrou chãos que pisei sem ter idéia de fazê-lo.
Os pés quando tornam o caminhar automático perdem o traçado, o cheiro, o destino.
O mundo ficou sendo aqui. Este pedaço de terra que recebe meu corpo e me mostra o infinito que nunca será de ninguém.
Eu não ouço nada, nem o silêncio. Não quero nada. Sinto minha imobilidade e cada poro lateja contente.
Nem sei se gostaria de alguém aqui, ao lado. Acho que não.
Mais, ainda – a vida podia ser só isso, nem que por um segundo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Por Gabriela
Nem quero achá-los.
Que os erros apodreçam e simplesmente se esqueçam que foram cometidos por nós.
Importa o encontro. Este aqui – de nossos olhos se engolirem e saberem.
Somos imaculados, um pro outro. Vamos nos querer assim.
Se tropeçarmos agora, que seja sem os sapatos que já usamos, não na estrada em que morremos.
Que se eles, os erros, vierem desta vez; que nos sejam amorosos e ensinem.
E não matem, não matem nada nesta perfeição de momento que somos nós dois.

terça-feira, 31 de março de 2009

Por Gabriela
Já catei muito vento. E conchas do mar.
Porque as ondas nunca se deixaram aprisionar.
Tive esta ilusão de controlar o tempo, de ser dona de mim.
Estive em montanhas altas, vendo o mundo de cima.
Enfiada em buracos, mal vi luz.
Eu fui demais.
Eu guardo um par de coisas destas minhas andanças.
Um girassol, o tênis furado na ponta, uma camiseta rasgada.
O catavento puído, um texto amarelado, uma foto sem data ou memória.
Uma garrafa vazia, um brinco quebrado, um pé de meia sem par.
Não, não são tesouros de uma índole apegada. Testemunhas, só. Cúmplices no meu ir pelo mundo.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Por Gabriela
Veio feito um fogo manso no começo.
Queimava mas ainda não era labareda.
Ardia, mas era só brasa.
Não pediu comprovação, não exigiu sacrifício.
Aceitação, um morno de saber o peito aberto e sossegado.
Nem reza, nem sermão, nem dogma, nem ouro.
Não era a palavra, tampouco o cerimonial. Nada que coubesse nos olhos.
Era só a vaga sensação por dentro, de fogo que não queima.
Fé.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... SEXTA-FEIRA

Por Gabriela
Sempre começo, sempre final.
Termina a semana, sai de nossos ombros o cansaço dos dias duros, trabalhados de sol a sol (ainda que ao abrigo do ar condicionado).
Começa o descanso, as perspectivas de.
De fazer sol, de pegar a estrada, de ir pra praia ou pro sítio, de pegar piscina, de fazer churrasco, de lavar o carro, de almoçar fora, de reunir a família, de dormir até tarde, de ir ao cabeleireiro, pegar um cinema, sair pra dançar, ver um lançamento no Telecine, jogar tênis, convidar um amigo pra bater papo em casa, andar pelo bairro a pé, andar pelo shopping, fazer um almoçozinho diferente, demorar pra sair da cama, tirar uma soneca depois do almoço, tomar umas cervejas no boteco da esquina, ler uma revista, terminar aquele livro, tomar café na padaria, fazer a lição de casa do curso de espanhol, planejar o futuro, ter tempo de uns muitos sonhos.
Sempre começo, sexta-feira.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Por Gabriela
- Não, não é um complô contra você!
- Claro que ninguém fez de propósito pra te magoar, acho que ele nem seu deu conta que você ficou chateada.
- Ah não, não acredito que alguém em sã consciência faça joguinhos deliberadamente pra te atingir! Não acha que está exagerando um pouquinho?
- Pára de imaginar coisas! Pra mim, é um pouco de paranóia da sua parte – ele seria muito maquiavélico se pensasse em algo assim, e os homens são bem mais racionais do que isso.
- Olha, você ficar se martirizando deste jeito não vai adiantar nada! Esquece isso, relaxa!
- Pode ser o maior lugar comum do mundo, mas você não precisa de um homem pra ser feliz.
- Enquanto você não focar em outras coisas e deixar de lado esta fixação em arranjar alguém, nada vai acontecer. Vai por mim!
- Não acredito que você ligou pra ele de novo??!! Ele não disse que ligava? E você já atropelou de novo??...
- Se quer que ele saiba de alguma coisa, seja direta. Estas mensagens dúbias enchem o saco e dão margem à interpretação que ele quiser. Depois não reclama.
- Quer saber de uma coisa?! O mundo não gira ao redor do seu umbigo! Deixa de ser egocêntrica! Cresça!

quarta-feira, 25 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... SIMULACRO

Por Gabriela
Há sim, estas cascas. Simulacros.
Inteira, quase nunca deixo me ver. E pra alguns muito poucos.
Justamente pra não ser falsa, pra abandonar de vez as máscaras que, por muito, usei.
Eu me embalo em alguns tecidos, véus e cores, mas sou mesma – sempre. Pode ter certeza.
Se te sorrio, é sorriso. Se te beijo, amor. Não há muita surpresa, mas toda verdade.
Não me espere carinhos mornos e disfarçados. Não me espere dulcíssima. Não sou eu.
Me respeite e aceite que te devolvo o mesmo.
E seu eu for, não me procure.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É...ÊXODO

Por Gabriela
Saíram de mim as chances todas de brotar.
Nem só aridez. Nem só descaso.
Houve ameaças de verde, suspeitas de colheita, embriões de frutos.
Vãos.
Tempo demais sem ver água, tempo de sobra pra murchar, fenecer.
Que vida é essa? Qual sina...
Lanço-me a este êxodo mas marcho sem vontade ou esperança ou corpo.
O que abandono já não sou há tempo demais.
E aonde ir não faz a menor diferença agora.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... IMPOTÊNCIA

Por Gabriela
A corda arrebenta um dia.
A gente se arrebenta um dia. De tanto fazer esforço pro contrário.
Um conselho?
Não se deixe chegar à sensação de impotência.
Quando ela vem, é porque a corda esticou demais.
Um sopro e rompe.
E aí é estrago que nem sempre se dá pra consertar.
E machuca, ah como machuca.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... ALMOÇO

Por Gabriela
- Café?
- Não, hoje não. O almoço não desceu bem.
- Tava ruim?
- Não, a comida não. Alguma coisa em mim, ruim, que anda me negando os bons sabores.
- Assim como?
- Assim, como se tudo fosse mesmo, sem sal.
- Tudo?
- Tudo...
- Faz tempo?
- ...ah, faz um pouco sim. Acho que desde segunda, uma semana talvez, talvez mais...um quase muito tempo.
- Que será?
- Sede, acho. Uma sede que tenho. De tudo, não de água. De gentes.
- Sede de gentes?...Que tira o sabor de tudo?
- Tira...porque as gentes não vêm e nada me alivia a garganta...nem café, nem nada.

(...) Pausa para a digestão.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FERIDA

Por Gabriela
Há bem pouco tempo ando tirando os band-aids da alma.
Estavam lá, molhados e feios, já quase desgrudando, soltando aquela colinha chata.
Acostumados à anatomia, já sem serventia.
Não lembranças das feridas, nem cicatrizes.
Como se ali, nada nunca tivesse sangrado.
Há bem pouco, muito pouco tempo não me machuco.
E saber inúteis os curativos, é paz.

terça-feira, 17 de março de 2009

Por Gabriela
Um dos meus professores de Física era ruivo.
Tive uma paixonite por ele, na época do colegial.
Ela não era bonito, mas era ruivo. Talvez isso tenha me atraído.
Ou aquela paixão dele e graça ao ensinar. Ele era bem humorado, ‘amigo’ dos alunos, sem perder a autoridade.
Um cara bacana, muito bacana.
Ninguém entendia minha atração, diziam que ele parecia um duende de conto de fadas.
Eu não ligava. Talvez porque também não entendesse o que nele, me atraía.
Foi único período em que a matéria fez algum sentido pra mim e tirei boas notas.
Depois dele, a Física voltou a ser quase sempre mistério, ainda que ternas lembranças tenha deixado.
Eu acho que a culpa foi mesmo daquele cabelo ruivo dele.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... TORMENTA

Por Gabriela
E o que mesmo sobrou depois de tudo?
Do estômago embrulhado depois do beijo arrancado à força quando já não era amor mas desespero de dois que não sabem como se largar mesmo depois do destroçado fim, início de começar a tomar lugar o mais puro e perigoso desprezo um pelo outro?
O que? Depois do devassar de toda intimidade, da exposição crua, do percorrer dos avessos até a exaustão? Depois de saber do outro até o que o próprio nega? E escarafunchar, cutucar, achar até o que não se sabia vivo? Sobra o que?
Amor nunca foi, que não é isso.
Tormenta. O fantasma de não se poder sozinho, de não se olhar por dentro e precisar sempre um outro – de muleta, de consolo, de espelho, de saco de pancada.
Claro que não, claro que não sobra nada depois disso.
Os cacos, reais, são de carne viva. Mas os sentimentos se preservam intactos, porque nunca houve nenhum.
Nenhum.
Não há restos se houve nada.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Por Gabriela
Começou com um pequeno desconforto. Uma dorzinha de nada.
Depois evolui para uma pontada, pontadazinha; é verdade; mais pro lado esquerdo.
Imaginou algo gástrico, já que era na região abdominal o incômodo.
Má digestão, talvez. Fígado, será?
Úlcera não, que não era no estômago, ainda que um pouco de azia sentisse às vezes.
Enjôo nenhum, mas uma tontura um dia, que a deixou branca feito cera.
Coisa estranha! Que não era de ter nada, difícil ficar doente, correr pra médico.
Talvez nervoso, cansaço. Fundo emocional – um medinho sabe-se lá do quê, porque ‘cabeça é tudo’, né?
Ia deixar passar mais uns dias, não havia de ser nada – se piorasse, iria ao médico.
Mais uns dias assim, meio chatinha, mas levando.
Então quando teve que correr pro banheiro, tonta de náusea e enjôo, quando sentiu o cheiro do perfume delicioso do marido, ficou preocupada.
Xiiii! Será? ‘Barriga, barriga mesmo?’
Correu pra farmácia, descabelada e branca, zonza e esperançosa. Será?
Ah, seria tão bom se fosse sim, barriga...

quarta-feira, 11 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FEIJÃO

Por Gabriela
Tava desenxabida. Sabe desenxabida? Essa coisa nem cá nem lá? Um morno chato, uma vontade manca, um humor omisso. Mais pra reclamar da vida, pra implicar com a colega chata que faz cara de Poliana a existência inteira e tem voz de quem está rindo indeterminadamente mesmo quando o assunto é dos mais sérios e pentelhos (sim, concomitantemente). E dona daquela impaciência crônica que faz acreditar que o mundo se transformou num grande complô pra te aporrinhar, estragar o dia, lembrar que você nem deveria ter levantado da cama, quiçá sair de casa! Então, desenxabida e irritada, querendo morder o primeiro infeliz que ousasse cruzar seu caminho com aqueles risinhos bobos na cara. E eis que a amiga chama pro almoço. E além dela, mais duas amigas. E a caminho do restaurante, aquela falação meio raivosa contra as chatices do dia a dia, as pessoas e suas incongruências, as falsidades, politicagens...até diluir, virar risada, sair como desabafo e ficar infinitamente minúsculo, quase pó. E somada a isso, na fila do self-service, aquele feijão preto delicioso, luzidio, cheirando carne gorda e tempero de cozinheira de mão cheia! Fez esquecer tudo, aquele prato de feijão no almoço, cercado de amigas com quem se pode compartilhar coisas da vida, quaisquer. E na volta ao escritório, depois do café, só conseguia pensar que tinha sido bom ter saído da cama de manhã cedo.