Por Sylvia
Ele gosta de se deixar levar. Qualquer corrente de ar, brisa ou aragem lá está ele, no ângulo certo que o suspende do chão e aí flana com gosto e sem culpa; mas gosta ainda mais de pé de vento ou rajada das que levantam pó, sente emoção forte, frio no estômago, arrepio na pele. Conhece todas as manifestações do ar em fúria: rajada, furacão, turbilhão, tornado, até redemoinho e minuano, aquele vento frio e seco que vem do sul e atravessa o país chegando até o norte. Surge gelado e penetra os ossos, trazendo o frio dos Andes. Gosta dos alíseos também, que de tão úmidos adoecem o pulmão e deixam as pessoas loucas.
Diariamente, um desafio é lançado: uma palavra, apenas uma, que seja capaz de mexer com a criatividade desses oito escritores. Eles deixam os dedos correr no teclado, livres e descomprometidos. O resultado? Uma poesia, uma crônica, um haikai, um conto... Enfim, o que a inspiração deixar. O blog é isso, um convite à criatividade, provocada todos os dias, no finalzinho do expediente.
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segunda-feira, 16 de março de 2009
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Por Sylvia
Nasci ali, bem no meio. Minha função é de comporta, fazer dique para num dado momento liberar tudo o que represei.
No calor, minha pele se abre, começo a porejar e um rastro brilhante se desenha aí, habitação de liquens e musgo. Isso me diverte. Prazer em ser escoadouro. Às vezes o trabalho é tranquilo, em outras vira borbotão, corredeira, catarata, cachoeira, enchente, dilúvio.
Quando me abro, inundo o lado de lá, trazendo verdor ou morte. Depende de minha vontade.
No momento, estou fechada, pois no inverno devo fazer provisão para outros tempos, eclusa que sou.
Nasci ali, bem no meio. Minha função é de comporta, fazer dique para num dado momento liberar tudo o que represei.
No calor, minha pele se abre, começo a porejar e um rastro brilhante se desenha aí, habitação de liquens e musgo. Isso me diverte. Prazer em ser escoadouro. Às vezes o trabalho é tranquilo, em outras vira borbotão, corredeira, catarata, cachoeira, enchente, dilúvio.
Quando me abro, inundo o lado de lá, trazendo verdor ou morte. Depende de minha vontade.
No momento, estou fechada, pois no inverno devo fazer provisão para outros tempos, eclusa que sou.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Por Sylvia
Gostaria de me casar com véu e grinalda, de obedecer meu marido, de ter muitos filhos, de gostar de minha sogra, de ter tres cachorros, tres gatos e dois passarinhos. Gostaria de gostar de ir à missa, de rezar todos os dias, de fazer tricô e crochê, de fumar muito, pois isso distrai, de jogar carta, de dançar, de dar risada, de chorar quando sentisse tristeza, gostaria de tudo isso e mais ainda: de viajar, de fazer compras, de me tatuar, de tomar sol e banho de cachoeira, de fazer amor, de tomar chuva e sorvete.
Mas o médico disse que tenho idiossincrasia de tudo isso.
Gostaria de me casar com véu e grinalda, de obedecer meu marido, de ter muitos filhos, de gostar de minha sogra, de ter tres cachorros, tres gatos e dois passarinhos. Gostaria de gostar de ir à missa, de rezar todos os dias, de fazer tricô e crochê, de fumar muito, pois isso distrai, de jogar carta, de dançar, de dar risada, de chorar quando sentisse tristeza, gostaria de tudo isso e mais ainda: de viajar, de fazer compras, de me tatuar, de tomar sol e banho de cachoeira, de fazer amor, de tomar chuva e sorvete.
Mas o médico disse que tenho idiossincrasia de tudo isso.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Por Sylvia
Chegou vestida com uma capa preta, brilhante. A cabeça coberta com capacete negro encobria suas feições. Mancha escura, movia-se com segurança, embora desse algumas paradas para sentir o ambiente. Açucena, que tomava conta da chapeleira, a viu entrar; no entanto o ambiente de luz baixa confundia as formas e Açucena já não enxergava direito. A de capa preta, insinuante, aproximou-se com confiança e parou junto ao canto do balcão. Seu erro foi chegar perto demais. Açucena arrepiou-se e deu um grito, pegou o chinelo ( trabalhava de chinelo atrás do balcão) e bateu e bateu até esmagar aquela vestida de capa preta brilhante coitada, coitada, é só um filhote! dizia com asco e piedade ao ver o líquido escuro que saía do corpo daquela de capa preta.
Chegou vestida com uma capa preta, brilhante. A cabeça coberta com capacete negro encobria suas feições. Mancha escura, movia-se com segurança, embora desse algumas paradas para sentir o ambiente. Açucena, que tomava conta da chapeleira, a viu entrar; no entanto o ambiente de luz baixa confundia as formas e Açucena já não enxergava direito. A de capa preta, insinuante, aproximou-se com confiança e parou junto ao canto do balcão. Seu erro foi chegar perto demais. Açucena arrepiou-se e deu um grito, pegou o chinelo ( trabalhava de chinelo atrás do balcão) e bateu e bateu até esmagar aquela vestida de capa preta brilhante coitada, coitada, é só um filhote! dizia com asco e piedade ao ver o líquido escuro que saía do corpo daquela de capa preta.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Por Sylvia
Um dia de sol e ela sumiu. Minha sombra foi embora sem me avisar, sem pedir licença. Fiquei triste, fiquei indignada, perdi o equilíbrio. Naquela mesma noite, a lua já tinha se posto, senti algo denso e alumbrado encostar-se a mim. Sou eu mesma, você não está me reconhecendo, mas sou eu mesma, não se assuste. Só vim me despedir, afinal vivemos juntas por tanto tempo, e aí me deu um cansaço, fui embora assim sem mais nem menos. Voltei só para me despedir, para lhe dizer que foi ótimo o tempo em que vivemos juntas, não tenho queixas de você, delicada que sempre foi, gentil, elegante. Mas cansei, cansei de ser sua sombra, cansei de ser sombra. Ontem ao abandonar você, sem rumo que estava, surgiu um espaço de luz. Deixei de ser sombra, agora sou luz.
Um dia de sol e ela sumiu. Minha sombra foi embora sem me avisar, sem pedir licença. Fiquei triste, fiquei indignada, perdi o equilíbrio. Naquela mesma noite, a lua já tinha se posto, senti algo denso e alumbrado encostar-se a mim. Sou eu mesma, você não está me reconhecendo, mas sou eu mesma, não se assuste. Só vim me despedir, afinal vivemos juntas por tanto tempo, e aí me deu um cansaço, fui embora assim sem mais nem menos. Voltei só para me despedir, para lhe dizer que foi ótimo o tempo em que vivemos juntas, não tenho queixas de você, delicada que sempre foi, gentil, elegante. Mas cansei, cansei de ser sua sombra, cansei de ser sombra. Ontem ao abandonar você, sem rumo que estava, surgiu um espaço de luz. Deixei de ser sombra, agora sou luz.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Por Sylvia
Você tem tempo para tomar mais um café? Vai ter paciência de me ouvir novamente? Até já sei o que vai me dizer... não?! Você não sabe do que estou falando?! Pois então...Sempre aquele assunto. Só mudam os personagens...Por mais que me esforce, não consigo, não consigo ser diferente.
Ana ainda não foi embora. Sabe por quê? Não? Não sabe? Dessa vez quis fazer tudo diferente,como você me aconselhou.
Sou atencioso, telefono sempre depois de nossos encontros, procuro ser interessante, generoso na medida de minhas possibilidades... nem digo materiais, não, não é disso que estou falando, é claro, isso é fácil, dispender o que tenho é fácil. O difícil é dar o que não tenho... como fazer isso? Como me importar de fato com o que ela diz, com suas questões, com suas angústias? Como? Como? Você me falou mil vezes, mil vezes você disse que preciso sair de mim, que não sou o centro do mundo, que preciso perder o medo. Mil vezes você me disse. Então... fiz tudo que estava na planilha. Você estranha a palavra?! Pois é meu amigo, planilha...Assim teria mais controle da situação. Fiz colunas e linhas para organizar datas e saídas, presentes, idas ao restaurante, viagens, conversas sobre nós, número de relações sexuais por semana, cinemas, teatros que detesto, discussão de livros, palestras, convites a casais amigos, flores, caixas de chocolate, pequenas surpresas. Pareço estar agradando, Ana responde a todas essas gentilezas com afeto, muitas vezes com paixão. E minha desconfiança cresce. Sim, já sei o que vai falar, que sou maluco, que invento coisas para não ficar com uma mulher, que começo a criar situações intoleráveis até que ela não aguente e vá embora. Pois resolvi escutar seus conselhos, estou seguindo à risca a planilha, não vou estragar nada, por isso chamei você aqui hoje. Mais um café? Talvez um uísque agora, estou precisando de um. Aceita? Puro? Sei que gosta puro, sem gelo. Está difícil, muito difícil. Entrei em pane, sim pane...me sinto um motor de altíssima qualidade, um Mercedez, um avião, um foguete supersônico que está falhando. E se esse carro estiver em alta velocidade, se esse avião, esse foguete estiver voando, uma pane no motor...
Você tem tempo para tomar mais um café? Vai ter paciência de me ouvir novamente? Até já sei o que vai me dizer... não?! Você não sabe do que estou falando?! Pois então...Sempre aquele assunto. Só mudam os personagens...Por mais que me esforce, não consigo, não consigo ser diferente.
Ana ainda não foi embora. Sabe por quê? Não? Não sabe? Dessa vez quis fazer tudo diferente,como você me aconselhou.
Sou atencioso, telefono sempre depois de nossos encontros, procuro ser interessante, generoso na medida de minhas possibilidades... nem digo materiais, não, não é disso que estou falando, é claro, isso é fácil, dispender o que tenho é fácil. O difícil é dar o que não tenho... como fazer isso? Como me importar de fato com o que ela diz, com suas questões, com suas angústias? Como? Como? Você me falou mil vezes, mil vezes você disse que preciso sair de mim, que não sou o centro do mundo, que preciso perder o medo. Mil vezes você me disse. Então... fiz tudo que estava na planilha. Você estranha a palavra?! Pois é meu amigo, planilha...Assim teria mais controle da situação. Fiz colunas e linhas para organizar datas e saídas, presentes, idas ao restaurante, viagens, conversas sobre nós, número de relações sexuais por semana, cinemas, teatros que detesto, discussão de livros, palestras, convites a casais amigos, flores, caixas de chocolate, pequenas surpresas. Pareço estar agradando, Ana responde a todas essas gentilezas com afeto, muitas vezes com paixão. E minha desconfiança cresce. Sim, já sei o que vai falar, que sou maluco, que invento coisas para não ficar com uma mulher, que começo a criar situações intoleráveis até que ela não aguente e vá embora. Pois resolvi escutar seus conselhos, estou seguindo à risca a planilha, não vou estragar nada, por isso chamei você aqui hoje. Mais um café? Talvez um uísque agora, estou precisando de um. Aceita? Puro? Sei que gosta puro, sem gelo. Está difícil, muito difícil. Entrei em pane, sim pane...me sinto um motor de altíssima qualidade, um Mercedez, um avião, um foguete supersônico que está falhando. E se esse carro estiver em alta velocidade, se esse avião, esse foguete estiver voando, uma pane no motor...
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
A PALAVRA DE HOJE É... CARACOL
Por Sylvia
Nasci assim, sem precisar de ninguém para me cuidar. Já nasci formado, com uma casca que me protege e que me protege mais ainda na medida em que cresço. Sou hermafrodita, possuo em meu corpo órgãos femininos e masculinos. Não conheço ninguém assim. Completo que sou, nada me falta.Tenho porém um desejo secreto que não revelo jamais. Gostaria de poder sair de minha casa e passear pelo sol. De poder arrastar minha barriga pela terra, deve ser estimulante sentir o cheiro fresco da terra virgem. Se fizer isso, morro, pois meu corpo precisa de umidade para sobreviver. Nesse ponto fico parecido com as minhocas, seres desprezíveis, de corpo mole, pele nua, sem esqueleto. Deixo um rastro de muco viscoso que facilita minha locomoção pois me dá maior aderência ao solo. Nem por isso consigo correr; minha casa pesa em meus ombros. Aliás, sua forma é inspiradora para artistas e arquitetos, tenho visto por aí, tenho ouvido falar.
Gostaria de ser serpente, mas sou apenas um caracol.
Não se foge ao destino.
Nasci assim, sem precisar de ninguém para me cuidar. Já nasci formado, com uma casca que me protege e que me protege mais ainda na medida em que cresço. Sou hermafrodita, possuo em meu corpo órgãos femininos e masculinos. Não conheço ninguém assim. Completo que sou, nada me falta.Tenho porém um desejo secreto que não revelo jamais. Gostaria de poder sair de minha casa e passear pelo sol. De poder arrastar minha barriga pela terra, deve ser estimulante sentir o cheiro fresco da terra virgem. Se fizer isso, morro, pois meu corpo precisa de umidade para sobreviver. Nesse ponto fico parecido com as minhocas, seres desprezíveis, de corpo mole, pele nua, sem esqueleto. Deixo um rastro de muco viscoso que facilita minha locomoção pois me dá maior aderência ao solo. Nem por isso consigo correr; minha casa pesa em meus ombros. Aliás, sua forma é inspiradora para artistas e arquitetos, tenho visto por aí, tenho ouvido falar.
Gostaria de ser serpente, mas sou apenas um caracol.
Não se foge ao destino.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
A PALAVRA DE HOJE É... SUPLÍCIO
Por Sylvia
Gostaria de rasgar com os dentes a jugular de quem invade meu espaço, de quem quer pegar minha fêmea ou meu macho. De comer até mais não poder, de me fartar até vomitar o que não cabe mais, assim como de beber até me afogar, sem me afogar. De ficar verde de bílis cada vez que alguém tiver algo que desejo e que não posso obter. De passar por cima dos humildes, que me fazem mal e de quem me ajudou, para não mostrar que um dia precisei. De não dar nada a ninguém, nada que esteja sobrando, nada que alguém esteja precisando. Nada. Gostaria de ficar ao sabor do vento e das tempestades, do sol e da chuva aproveitando tudo, não me negando nada, com excesso e desbordamento, completamente sem freios.
O caminho da virtude é um suplício.
Gostaria de rasgar com os dentes a jugular de quem invade meu espaço, de quem quer pegar minha fêmea ou meu macho. De comer até mais não poder, de me fartar até vomitar o que não cabe mais, assim como de beber até me afogar, sem me afogar. De ficar verde de bílis cada vez que alguém tiver algo que desejo e que não posso obter. De passar por cima dos humildes, que me fazem mal e de quem me ajudou, para não mostrar que um dia precisei. De não dar nada a ninguém, nada que esteja sobrando, nada que alguém esteja precisando. Nada. Gostaria de ficar ao sabor do vento e das tempestades, do sol e da chuva aproveitando tudo, não me negando nada, com excesso e desbordamento, completamente sem freios.
O caminho da virtude é um suplício.
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