Diariamente, um desafio é lançado: uma palavra, apenas uma, que seja capaz de mexer com a criatividade desses oito escritores. Eles deixam os dedos correr no teclado, livres e descomprometidos. O resultado? Uma poesia, uma crônica, um haikai, um conto... Enfim, o que a inspiração deixar. O blog é isso, um convite à criatividade, provocada todos os dias, no finalzinho do expediente.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... ABDOMINAL

Por Mariângela
Você me aparece
Você sempre some
Às vezes sorri
e olha de rente
eu vejo e te encaro
ou sigo em desprezo
Respiro e prossigo
seu rosto em meu beijo.
É essa a lembrança
que guardo na sala
seu quadro emoldura
meu tempo ocioso
é quando retraio
e elevo meu ventre
deitada no chão
te vendo de frente.
Por Gabriela
Começou com um pequeno desconforto. Uma dorzinha de nada.
Depois evolui para uma pontada, pontadazinha; é verdade; mais pro lado esquerdo.
Imaginou algo gástrico, já que era na região abdominal o incômodo.
Má digestão, talvez. Fígado, será?
Úlcera não, que não era no estômago, ainda que um pouco de azia sentisse às vezes.
Enjôo nenhum, mas uma tontura um dia, que a deixou branca feito cera.
Coisa estranha! Que não era de ter nada, difícil ficar doente, correr pra médico.
Talvez nervoso, cansaço. Fundo emocional – um medinho sabe-se lá do quê, porque ‘cabeça é tudo’, né?
Ia deixar passar mais uns dias, não havia de ser nada – se piorasse, iria ao médico.
Mais uns dias assim, meio chatinha, mas levando.
Então quando teve que correr pro banheiro, tonta de náusea e enjôo, quando sentiu o cheiro do perfume delicioso do marido, ficou preocupada.
Xiiii! Será? ‘Barriga, barriga mesmo?’
Correu pra farmácia, descabelada e branca, zonza e esperançosa. Será?
Ah, seria tão bom se fosse sim, barriga...

quarta-feira, 11 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FEIJÃO

Por Gabriela
Tava desenxabida. Sabe desenxabida? Essa coisa nem cá nem lá? Um morno chato, uma vontade manca, um humor omisso. Mais pra reclamar da vida, pra implicar com a colega chata que faz cara de Poliana a existência inteira e tem voz de quem está rindo indeterminadamente mesmo quando o assunto é dos mais sérios e pentelhos (sim, concomitantemente). E dona daquela impaciência crônica que faz acreditar que o mundo se transformou num grande complô pra te aporrinhar, estragar o dia, lembrar que você nem deveria ter levantado da cama, quiçá sair de casa! Então, desenxabida e irritada, querendo morder o primeiro infeliz que ousasse cruzar seu caminho com aqueles risinhos bobos na cara. E eis que a amiga chama pro almoço. E além dela, mais duas amigas. E a caminho do restaurante, aquela falação meio raivosa contra as chatices do dia a dia, as pessoas e suas incongruências, as falsidades, politicagens...até diluir, virar risada, sair como desabafo e ficar infinitamente minúsculo, quase pó. E somada a isso, na fila do self-service, aquele feijão preto delicioso, luzidio, cheirando carne gorda e tempero de cozinheira de mão cheia! Fez esquecer tudo, aquele prato de feijão no almoço, cercado de amigas com quem se pode compartilhar coisas da vida, quaisquer. E na volta ao escritório, depois do café, só conseguia pensar que tinha sido bom ter saído da cama de manhã cedo.
Por Mariângela
Separando os grãos, ele viu um muito diferente.
Pensou, a princípio, que estava estragado.
Mas analisando de perto, apalpando e sentindo o cheiro,
se deu conta de que era um feijão raro, que brilhava contra a luz.
Não colocou com os outros, nem cozinhou-o em separado.
Achou tão especial e único, que guardou-o dentro de um vidro,
numa prateleira qualquer do armário da cozinha.
Anos se passaram, até décadas, e o feijão raro ali, no vidro.
Quase todo o dia o homem admirava e contemplava o seu achado.
Ria-se ao pensar que ele era dono de um feijão inigualável. Ele, só ele.
Mas então o homem morreu, foi velado e enterrado.
No testamento, os bens repartidos entre seus entes não citavam o feijão.
A casa foi vendida e a nova família encontrou o vidro solitário, na prateleira.
Olharam, analisaram, cheiraram, apalparam
e não viram qualquer sentido naquele feijão.
Acabou triturado na caçamba do caminhão de lixo.


Por Cristina
Destampou a panela e colocou o rosto sobre o vapor. Se ficasse ali algum tempo será que as gotas de suor cairiam sobre a comida, la dentro? E as pessoas, perceberiam o gosto da sua pele entre os temperos? Que nojo!!! Afastou-se mais do que depressa.
Que maneira mais estranha de encher a cabeça para passar o tempo!
O ato de cozinhar tornara-se mecanico demais e subterfúgios como este eram necessários para que não enlouquecesse por completo.E se espirrasse um pouco de perfume dentro da comida, bem pouco, será que faria mal para as pessoas?
Sim, devia confessar que um pouco desnorteada, já estava. Como não estar, fazendo aquela mesma coisa todos os dias? Fazia, eles comiam, ela lavava; fazia de novo, eles comiam, ela lavava; no dia seguinte começava tudo de novo.
Não é que não gostasse de cozinhar,mas há muito não sentia prazer algum. Precisava de novidades. Fazer uma nova receita? De que adiantaria? Juca só comia arroz se acompanhado de feijão; Cibele não gostava de salada; Carlota só comia carbohidrato; ninguém gostava de peixe; macarrão só com molho de tomate; bife só muito bem passado; batata sempre....Tudo muito cansativo. Fora os temperos: sem salsinha para um, com muito louro para outro, nada de orégano, só uma pitada de pimenta, bem pouco...
O ato de cozinhar tornara-se tão morno, tão desprovido de elogios....
Foi então que teve a idéia. Modificaria as coisas. Queria ver se não reparariam. A cada dia não faria para um deles bem aquilo que repetidamente comia, dia após dia. Ficou contente! Começaria hoje. Isso. Feliz começou a descascar batatas!
Hoje Juca, se quisesse arroz, teria de comê-lo sem o seu feijão.
Por Sócrates
- "O arroz deu cacho e o feijão floreiou. Milho na palha, coração cheio de amor".
Uma multidão avança sobre a câmara e canta:
- "O arroz deu cacho e o feijão floreiou. Milho na palha, coração cheio de amor".
Por de trás da câmara uma lágrima e a frase de Che: "Quando o extradiornário fizer parte do cotidiano, terá a revolução".
No acampamento longe da fala fácil de Mirian Leitão, Renato Machado, Alexandre Garcia e todos os filhotes do neoliberalismo - as pessoas cantavam e plantavam feijão no lugar de eucalipto. Afinal, todos queriam comer. E eucalipto não se come.
Seria mais um dia após a ocupação, o que o acampados chamam de resistência. Uma etapa superada por trabalho e suor; porque, só se resiste produzindo, porque, só aguenta a resistência, quem canta:
- "O arroz deu cacho e o feijão floreiou. Milho na palha, coração cheio de amor".
Atrás da câmara a lágrima ganha um adepto: o arrepio dos braços e uma nova canção:
- "Quebra, quebra, quebra, quebra cadeado, o MST é o povo organizado".
Afinal, quebrar o cadeado é uma atitude cultural, teria pensado o diretor.

terça-feira, 10 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FUMAÇA

Por Mariângela
Não era rio, nem neve em abundância.
Não teve frio nem calor escaldante.
Muito menos a brisa do outono
ou o sol manero da primavera.
Não eram terremotos nem vulcões em erupção
ou maré alta, ressaca brava, seca e estiagem.
Era apenas aquela quase nuvem leve e clara.
Assim você me foi, assim você se foi,
fumaça...
Por Gabriela
Uma última tragada de você. Preciso.
Te solto depois, prometo.
Em um expirar lento, te expulsando fumaça de minha boca e cada um de meus poros impregnados.
De uma hora pra outra sim, que assim se livra de um vício. Pela raiz.
Porque delícia e mal se misturam neste desvario repetitivo de nunca parar.
Paro hoje, te empenho minha palavra.
Depois de um último desesperado tragar.
Pra lembrar o gosto, da cócega que me fazia sorver-te.
Por Cristina
Tire-me desta fumaça por favor, estou sufocando.
Você não está vendo? Vem de todos os lados, não sei como consegue respirar.
Já não sei mais o que fazer. Ando como se estivesse nadando, dando braçadas para abrir caminho até você.
Tudo negro, só você não vê.
E a fumaça que sai de nossas bocas quando falamos? E o rastro que nossas mãos deixam quando se movimentam? E a falta de ar que nos faz tossir? E os olhos? Porque sai esta poeira dos teus?O ar puro se foi.
O sol já não nos alcança.
Tudo se atrapalhou.
Fumaça é tudo o que temos para trocar.
Por Sócrates
Uma fumaça lilás. Restam poucas lágrimas, apenas um suor colorido pela tintura opressiva do capitalismo. A doçura das manhãs derrete-se entre os vestidos e os seios impávidos das mulheres. O noticiário local informa o fim da greve e esquece os motivos da paralização."Um salário justo" teriam dito se pudessem. Sem espaço, sobrou a fumaça lilás e uma última homenagem. Uma mensagem que encobriu o céu clandestinamente, sem a permissão dos algozes patrões. Todas morreram. Não tem mais café fresquinho, tão pouco o beijo macio acompanhado por uma canção de ninar. Felizmente, um último suspiro. Lilás.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... COLAR

Por Sócrates
Avistei o universo inteiro dentro dele
Apanhei cada pérola
Costurei cada uma
Amarrei cada pedra
Avistei o inferno inteiro dentro dele
Cutuquei a sua nuca
Acariciei a sua boca
Rasguei a sua roupa
Estou no mar
Estou no infinito
Apenas o corpo e o colar
Como se fossem um olhar
Como se bastasse amar
Primeiro, o colar
Depois o corpo
E enfim, o mar
Por Mariângela
É no meu pescoço que penduro tuas lembranças.
Balançam cada vez que caminho nesta estrada
Um colar que se liga por idéias e sonhos,
unidos por um fio sem nós ou fechos.
Não o tiro, porque tua presença ainda orna minha vida.
Talvez, um dia, me canse das mesmas contas,
queira outro fio para juntar meus cantos e unir meus pontos.
Por ora e encanto, ainda te levo comigo,
por enquanto, basto-me assim.
Por Cristina
Quero pele macia contra meu corpo,
arroubos de noites de não dormir,
quero volúpia, entrega, desvario,
gemer, querer, sorrir.
Quero perder-me do mundo
num roçar de lábios,
como as contas macias
do colar em meu pescoço.
Quero, como o das pérolas,
o brilho de velas,
a luz difusa,
a sussurrar desejos.
Quero lampejos!
Quero o enlaçar de braços
desejos unidos,
corpos despidos,
arfares,
rufares e beijos.
Quero fusão,
quero perder-me
sem aviso de antemão,
sem ilusão.
Quero paixão
Por Gabriela
Um colar de contas me conta toda.
O citrino amarelo minha avó me deu, ainda menina, pra carregar pela vida, feito farol. Pra dias escuros, pra sempre.
As pérolas vêm da outra avó, depois de minha mãe. Dos bailes de debutantes até hoje, pra acreditar em sonhos.
O coral vermelho pra aquecer o peito, de alguém que me viu crescer. E me viu sorrir muito mais que hoje.
A safira, pela formatura na faculdade, azul azul como prometiam o futuro naquele tempo. De meus pais.
Nem rubi ou esmeralda nestas voltas, que muita coisa minha vida ainda não tratou de trazer.
O brilhante eu talvez quisesse em um dedo, solitário, pra me mostrar justamente o oposto de ser só.
Mas nem só de contas e pedras, a vida.
Um brilho de olho, só, também dá conta de me contar toda.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... ÍNDIA

Por Gabriela
Noz moscada. Curry. Páprica. Incenso.
Taj Mahal. Kajal. Sári. Pele cor de azeitona.
A Índia me chama pelos seus sabores, suas cores, histórias de mil e uma noites.
Repele-me pelo sujo, pela divisão em castas, pelo predomínio da tradição em detrimento da emoção e do novo.
Eu não colocaria minha mão no imundo Ganges – por místico que preguem.
Não reverenciaria vacas nem ratos, elefantes talvez (mas não montaria em seus lombos).
Iria sim, ao Taj Mahal, talvez apenas por uma ilusão romântica à toa.
Me chamem de preconceituosa, mas eu não tenho a menor vontade de ir à Índia.
Talvez eu esteja longe da iluminação. Talvez me falte amadurecimento e espiritualidade.
O fato é que não quero.
Não vou pra lá.
Por Mariângela
Viajei para a Índia, ontem à noite, deitada no tapete da sala.
Meu véu balançava ao vento, enquanto caminhava nas ruas
entupidas de carros, pessoas, camelos e vacas sagradas.
Não sei porque escolhi a Índia para essa viagem imaginária -
fuga inconsciente de meus dias em uma cidade como esta onde vivo?
Talvez a simplicidade, a beleza das moças morenas,
com gotas coladas no meio da testa, ornando um terceiro olho que eu não tenho.
Ou a música sensual e a plástica das danças que me envolve em um gostoso remexer.
Fito um horizonte de construções lindas, que convivem com o tempo secular.
É muito encantamento... eu sinto... muita magia... eu vivo... muito sonhar.
E eu tão zen, tão bem, vou além... bem pra lá de Marrakesh.

quinta-feira, 5 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... UIVO

Por Cristina
Uivava por qualquer coisa. Ficava bravo uivava, ficava triste uivava, raivoso, desanimado, uivava por tudo.
Ela achava engraçado. Não conseguia condoer-se de alguém que uiva. Estava acostumada com tristeza, com choro, com pessoas que tinham dó de si mesmas, mas não com uivos.
Conversou com ele, explicou, queria que ele entendesse que para ela, a linguagem dos uivos era incompreensível. Mas de nada adiantou. Os uivos continuaram. Alguns eram seguidos de acessos de silencio profundo em que nenhuma aproximação era considerada digna de atenção e, conseguisse uma conversa, era seguida de novos uivos.
Quando enfim voltava a calmaria ele parava de uivar e este sim era o ele que ela gostava. Porém, a qualquer momento, por quase nada, os uivos voltavam.
Ao primeiro uivo da ultima série, saiu de perto. Foi indo, foi indo e se foi. Até hoje quando se lembra acha engraçado e ri. Mas chegar perto de novo, nem pensar!
Uivo não!
Por Sócrates

Porra, véi... dia bonito da porra que fez domingo. Levantei cedo pra caralho. Quando abri o olho, tava batendo 11:30 no relógio. Dei uma espiada na broca da parede e vi o solzão virado no estopô. Balancei a nêga do meu lado e disse carinhosamente: "Acorda, porra. Acorda nessa desgraça que a gente vai quebrar essa gelada na praia antes de ir pra Pituaço".Como era um dia muito especial pra mim, resolvi levar a sacaneta pruma praia de bacana. Jardim de Alá. Ou como diz meu bróder Obama:"God´s Garden".Peguei meu ingresso, o dinheiro do buzú e me piquei com a neguinha.
Normalmente eu escolho a barraca que eu vou ficar pela trilha musical. A que tiver tocando o som mais nigrinhagem, é a que eu fico. Fui passeando entre as barracas e comecei a ouvir um som que eu não escutava há uns 10 anos. Um repertório que ia do antigo Gera-Samba, passando por Neon do Samba, Pagolada, Feras Potentes e finalizando com o show do Kiribamba LIVE em Juiz de Fora (MG). Só os clássicos.
"A capenguinha, a capenguinha, a capenguinha, a capenguinha, a capenguinha, a capenguinha quer andar. A capenguinha quando não tá de muleta, ela pega no porrete pra poder se equilibrar..."
Era esse o nível do som. Puro jazz. Bom pra caralho.O nome da barraca era Ponto G. Pronto. Achei a porra do Ponto G. Pelo menos uma vez na minha vida eu achei essa porra. Com um nome desse, não tive dúvida. É aqui mermo.
Pedi logo uma gelosa e uma dúzia de lambreta. O lugar era muito bacana. Várias gostosas. O único mal é que tinha muito pombo. Parecia o Barradão, a porra.Tava tudo muito de fuder até a hora que encontrei Marquinho Sabonete.
Sabonete é um torcedor do vice. Ele tem esse apelido porque, dizem as más línguas, quando ele serviu ao exército, foi tomar banho, deixaram cair um sabonete e ele foi catar do chão. Depois desse incidente, o bicho ficou manco. Não sei porquê.
O fato é que o sacana resolveu tirar sarro com a minha cara. Disse que eu não tinha estádio. Que tava a não sei quanto tempo sem ganhar porra nenhuma e todas aquelas merdas que a gente tá acostumado a ouvir dos vices. E pra fuder com tudo, ainda disse que a gente ia tomar pau do Ipitanga!! Aí eu pirei. Mandei ele repetir o que ele disse:
- Repita aí o que você falou, véi..- O Jahia vai tomar de 1 a zero do Ipitanga - o filadaputa repetiu.- Repita aí de novo, véi...- Tá surdo, porra gordo?? o Jahia vai tomar gude preso do Ipitanga.
Rapaz... o sangue me subiu à cabeça. E a nega dizendo "calma, calma". O garçom dizendo "segura o gordo". E a baiana de acarajé dizendo "fudeu!!". E o pombo dizendo "gurururu, gurururu...." aí eu explodi.
- Ó seu viado desgraçado filadaputa corno manco do cu brocado. O Bahia hoje vai meter de 4 que nem fizeram com você no quartel, sinhá nisgraça. Só vou apostado, miserável!!
- Bora!! Pra cada gol do Bahia, uma grade pra você. Pra cada gol do Ipitanga, uma grade pra mim.
Eu não sei se o sacana tava bebo ou maluco. Só sei que aceitei a porra da aposta doida do fornecedor de briôco.
Saí virado na porra da praia. Já era dez pras três e eu ainda tinha que pegar a zorra do buzú pra Pituaço. As palavras de Sabonete ecoavam na minha cabeça... mas o Bahêa não ia me decepcionar. Não dessa vez.
Cheguei lá no estádio e me arrepiei de ver a massa tricolor. Puta que pariu. Coisa linda demais. A cidade é nossa, galera. Agora temos 2 estádios!! Um numa ponta (a boa e velha Fonte) e o outro na outra ponta da cidade. E que estádio. PituAÇO é lindo pra caralho. Me senti numa Copa do Mundo. Sem putaria nenhuma.
Hino do Brasil, Placar eletrônico de última geração, helicóptero jogando pétalas brancas, vermelhas e azuis... um SHOW!
Fui pegar logo meu copão de cerveja. Cerveja cara da porra!! 3 real lá dentro. E o balcão também era meio apertado, mas vamo nessa. Começou o jogo. O Ipitanga na pressão e eu ouvindo a voz de Sabonete na minha cabeça... "O Jahia vai tomar cacete" porra... será que vou ter que pagar engradado praquele viadinho??
Minha cerveja acabou. Mandei a nêga pegar outra pra mim. Foi ela subir a zorra da escada que eu só vi Élton matar a bola na coxa e meter um tirambaço pro fundo da rede!! Uivei feito doído. GOOOOOOL DO BAHIA MINHA PORRAAAA!!!! AHAHAHAHA!!! UMA GRADE!!!! UMA GRADE!!!! UMA GRADE!!!!Fiquei feliz pra caralho!!! Pena que a nêga não viu o gol... pena uma porra!!! Vai ver foi isso!!! Ela tava dando azar, a miserável.Ela voltou com um copão e fiquei vendo o jogo. O Bahia até que melhorou. Vai ver é viagem da minha cabeça. Deixa a nêga quieta curtindo o jogo do tricolaço.
Só que aí o Ipitanga desceu num contra-ataque virado na porra. O sacana do atacante chutou a queima roupa e Marcelo espalmou. O cara chutou de novo e Marcelo defende novamente. Caralho! Que sufoco.E pra fuder com tudo, meu copo ficou vazio.- Neguinha.... pega outra pra mim?Quando eu peço assim cheio de carinho, num tem não certo... a nêga faz tudo que eu quero. Lá foi ela pegar outra cerva.
Fiquei olhando ela subir pra pegar a cerveja. E não é que quando ela sumiu da multidão, Hélton Luiz recebe um passe da porra, sai picado, deixa dois zagueiros pra trás e BROCA!!! Uivei feito doído. GOOOOOOOOOOLLLL DO BAHIA, PORRA!!!! DUAS GRADES!!! DUAS!!! DUAS GRADES!!!!É grade pra caralho!!! Eu nem queria mais a cerveja que a nêga foi pegar. Fica lá, mizéra!!! Já tenho 2 grades!!! AHAHAHAHAHAHAH!!!Mas aí ela voltou cheia de chamego. Me deu um beijo na boca, entregou meu copão e a gente ficou curtindo o intervalo juntinho. Feliz da vida.
Aproveitei também o intervalo pra bater o mijão. Porra véi... banheiro de primeiro mundo. Mijar em mureta nunca mais. A porra limpinha, véi. Bonito pra caralho. Naquele dia eu tava achando tudo lindo! Até mictório.
Nada de mijar na mureta, viu, porra??
Começa o segundo tempo. O Bahia só administrando. Naquele reme-reme. Naquele toquinho pra cá, toquinho pra lá. Deu uns 20 minutos e a nêga percebeu que meu copão tava vazio.- Quer tomar, mais uma, preto?- Porra, nêga... pegue lá pra mim, vá...
E lá foi ela. Com aquele bundão pra lá e pra cá. Eu fiquei lá olhando aquele bundão lindo subindo a escada. Hipnotizado. Aí ela sumiu. Quando voltei o olho pro campo, tava rolando um bafafá na área do Ipitanga, a bola sobra pra Hélton Luiz e.... saco!!! Uivei feito doído. 3 grades de cerveja. Na moral... comecei a ficar com pena de Sabonete. Ô, meu Deus. O desgraçado vai ter que falar com a moça nos balcões BPN da Insinuante e pedir um empréstimo pra pagar minha aposta. Fale com a moça, filadaputa!!
A nêga tava demorando dessa vez. Mal terminei de comemorar o terceiro, quando o pequeno Ananias broca mais um. Quatro. Quatro a zero, papá!!! Quatro grades de pura alegria!! Uivei feito doído.Eu tinha cantado a pedra. Sabonete tomou no cu. Dessa vez não foi literalmente. Mas deve ter doído pra caralho do mesmo jeito.
Neguinha chegou com a minha cerveja na hora de um pênalty do Ipitanga. Só que o dia era do Bahia. Pituaçu era do Bahia. O sacana mandou a bola lá na casa da porra.
A torcida era só alegria. "Rubro-negro otário!! Enfie no cu seu aterro sanitário!!!". Era só o que se ouvia na saída do estádio. "Vamos torcer pro Bahia ser campeão, em Pituaçu meu Caldeirãoooo!!!". Caldeirão mermo. Aquela porra ferveu, véi. E se você não foi, vá!!! Porque é bom demais. E arranje um otário rubro-negro pra apostar umas grades. Eu já ganhei quatro, pai véi!!!
BORA BAHÊA, MINHA PORRAAAAAAAA!!!!

Obs: Não pude conter o meu uivo de alegria pela fase que vive o meu time do coração. Na Bahia todo mundo é Bahia. Quem não é Bahia torce para o Vice, o Vicetória ou simplesmente Esporte Clube Vitória.
Por Mariângela
Nunca acreditei nisso. Maldito ceticismo sem graça que só me atrapalha!
Mas nada como a vida, sábia encarregada das porradas cotidianas,
pra gente se rever e dar mão à palmatória, parar de cuspir pra cima
ou sentar no formigueiro achando que nada vai abundar.
Não me apresse que já conto o que me deixou desse jeito. Preciso, primeiro, respirar fundo.
Eu rezava aquele terço imenso, toda noite, ao pé do rádio, acompanhando o padre de sei lá onde, num AM 'estéril'.
Muito eu nem escutava...era um bzzzz....zzz...luchhhh....fiuuu.... de tanto chiado.
Mas eu seguia... ave-maria, pai-nosso... creio em Deus Pai...
Tudo ia bem até a primeira carreirinha de contas rosas.
Depois, meu amigo, era um decoreba, um trem sem sentido
que brotava de minha boca mole e da mente ausente:
ave-nosso... pai-maria... creio Pai... em Deus credo...
Até que um dia, no meio dessa ladainha noturna, ouvi um uivo forte e agudo, perto da entrada.
Fiz com a mão um "em nome do Pai" e encarei de frente, abrindo a porta.
Quase cai de costas sobre a cruz de madeira que fica a espreitar da varanda de casa.
Vi a besta, vi o dito - eu que só acreditava em anjo e santo, com aquela luminária na cabeça.
Quase mijei nas calças, mas fiquei firme, de terço em punho.
O bicho agonizava deitado aos meus pés. Uivava como se uma faca cravasse seu peito peludo.
E não é que era mesmo um punhal de prata?
Mas olhei nos olhos da coisa, as lágrimas do danado escorriam.
Acredita que fiquei com pena do tal? Que me ajoelhei e rezei para que aquilo lá não doesse mais?
E quando fiz isso - que doida que sou, não é mesmo? - a pata do monstro encostou na minha mão.
Juro que ouvi um ronronar baixinho: "tira isso daí pra mim, tira?"
Eu não sei de onde arranjei coragem - acho que do terço que larguei nas ancas da fera,
porque apoei meu pé no dito e com força puxei a afiada do meio do peito sangrando.
Não... não... pode se tranquilizar. Sente-se e termine o seu chá.
Ele não vai te fazer nada, não. Hoje sai cedo e volta bem tarde, porque é lua cheia.
Tem as tarefas de lobisomem para realizar - vai com Deus, menino!
Mas é isso, amigo, depois da tal noite, salvei o lobo da morte e hoje ele mora comigo.
De dia, ajuda nos trabalhos de casa, faz massagem nos meus pés quando tô tensa.
A noite, se a lua for outra, jantamos juntos, rezamos o terço e, dependendo de minha disposição,
rolamos no chão fazendo sexo selvagem
, porque não sou santa, né? Mas, creio.

Por Gabriela
Tem gente que pede em silêncio. E consegue.
Outros aos berros, à força. Conseguem também.
Alguns com delicadeza, quase miando. Claro que levam.
Outros nem pedem, alienados, e até estes, às vezes, conseguem.
Eu uivo.
Ninguém entende. Nem a lua.
Pessoa doida, ora.

quarta-feira, 4 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... DROGA

Por Gabriela
Um comprimido minúsculo embaixo da língua e o cabelo dela ficou azul.
Depois começaram a surgir aquelas borboletinhas incômodas e absolutamente vermelhas.
Mais um segundo e se juntaram à festa, o bando de seriemas com vestidos balonês cor-de-rosa.
Mas elas não dançavam, andavam de um lado pro outro do salão, muito sérias.
Os javalis, que não economizaram na chegada barulhenta, dançavam em ritmo frenético.
Dava a impressão que seus Black-ties fossem rasgar a qualquer instante.
A sereia que chegou sozinha ficou um tanto deslocada. Faltava mar, acho.
Mas o fauno saltitava feito estivesse em estado de graça, sujeito mais alegre!
Um gole de água, esta droga disfarçada servida por um garçom equivocado, e todos eles foram sumindo.
Como se a festa tivesse acabado e todos tivessem sido convidados a se retirar.
Ah não, ah não! Outra daquelas, quando?
Correu até o banheiro escuro e pediu mais um comprimidinho daquele pro moço verde que tinha se instalado ali.
E a festa recomeçou, sem hora pra acabar.
Por Sócrates
Nasci no interior, e lá sempre ouvi falar na cidade. Desde pequeno me dediquei aos estudos para que quando chegasse à hora, pudesse passar num vestibular e estudar na capital. E aqui estou, prestes a me formar em Química. Por aqui já fiz alguns amigos, tarefa que não é muito fácil. Esses aí sentados são os meus novos conhecidos, quero conhecer gente nova e interessante, porque desde que cheguei aqui tenho andado sempre no mesmo grupo. Sérgio é mais fechado, fala pouco, mas no fundo parece ser um cara legal. Com André é bem mais simples, talvez por ter uma origem humilde, sempre me tratou bem e demonstrou interesse pela minha história. E essa garota ai é a Alice, não gosto muito de falar essas coisas, mas não posso negar que quando olho pra ela sinto uma pulsação diferente.
Neste condomínio as pessoas se “enturmam” em rodas, diferente do interior onde todos se conhecem nas portas das casas ou na praça.Alguns dias atrás, todos estranharam quando eu disse que não fumava maconha. Por aqui parece ser comum o uso de drogas. Me senti meio deslocado por não fumar, quase não participei do papo e muito menos das risadas.
Por Mariângela
Estava aqui pensando com meus botões azuis:
qual a droga deste século?
E viajo - mesmo plenamente lúcida - por imagens, visões, cenários...
Tudo para buscar respostas no meio da odisséia do dia a dia.
Ainda não conclui nada, porque essas divagações são sempre interrompidas,
não há tempo para ócio ou meditações relaxadas e entregues.
Retorno tempos depois ao mesmo ponto, como um bêbado que anda, anda sem sair do lugar.
Mas a resposta não vem, nem perto da ponta da língua, nem quando me vejo fumando passivamente junto aos amigos num papo sem fim.
Que droga será essa que acomete a humanidade na raiz?
Talvez ainda não a nominaram, nem sabem bem de que é feita.
Mas sei que, vez ou outra, me sinto contaminada,
vivo overdoses e ressuscito sem mesmo saber quanto tempo estive fora do ar.
Não sei o que é, para que serve, muito menos como livrar-me dela...
mas sinto que existe e todos os dias caminha pelas minhas veias.
Por Cristina
Olhou para o céu e viu frases escritas em rosa choque e azul turquesa pensou que lindo, que lindo e quando abaixou os olhos novamente viu um pavão que abria a cauda, barulhento, bem em frente a ela, levou um susto enorme! Medo foi o que sentiu mas no mesmo instante começou a escutar uma musica alto e falou vamos, vamos, me leva aonde está a musica. Ele, fingindo que acreditava foi com ela e quando ela tropeçava em buracos que não existiam, a segurava forte pela cintura. Chegaram a uma praça não havia musica mas ela disse tem sim, estou escutando! Vamos dançar. Ele ria, ria, como ele ria! Dançou, fazer o que? Se ela escutava ele podia fingir que escutava também mas não disse nada. Ela escutava e cantou com a musica, ele dançou, deliciado. Delicia dançar na praça com ela. Dançaram, dançaram, ela cantou, cantou, ele cansou, ela não, e então ele disse: vem, vou te levar pra casa.
Entraram na banheira e a água fazia cócegas, ela não conseguia parar de rir e ele só olhava achando graça, colocou musica, ela adorou, mergulhava na banheira e ria porque sentia cócegas, ele disse vem, secou o corpo dela, secou os cabelos, ela fechou os olhos e devaneava, fez poesias, recitou para ele, ele ria, deliciado. Sentaram-se no terraço e as luzes da cidade brilhavam ele disse olha as luzes, ela viu em cada luz um monstro e correu para o colo dele ele disse calma, é só luz! Ela ficou com vontade de chorar e pediu não sai de perto de mim, ele cantou e ela se acalmou e ele nunca mais esqueceu aquela frase, não sai de perto de mim, não sai.
Levou-a para a cama, cantou para que ela dormisse e ficou com ela. Não saio. Não saio nunca mais de perto de você.

terça-feira, 3 de março de 2009

Por Gabriela
Extremo sul. Fronteira do fim do mundo de um país com o começo do mundo de outro.
Sempre achei curiosa essa história de divisa. Quem determinou?
E de que vale uma linha imaginária que separa mundos?
Proibição maluca de eu colocar meus pés do lado de lá e estar em outro país, num segundinho só.
Se meu corpo não tem fronteira, este meu e este seu mundo também não deveriam.
Eu queria poder só me esticar toda e entrar aí.
E sentir na pele esta imensa viagem, ainda que nada tenha mudado – nem o solo, nem a cor do céu, nem o peso do ar.
Mas só de saber outro país, o que você habita, já tem um gosto de bom, de novidade, de exterior. De transponível*.
(*aqui não meu país, a consulta ao dicionário resulta em ‘verbete não encontrado’. Mas na consulta a intransponível, a definição é de ‘não transponível’ – isso acontece no seu país??).
Bem, mas eu me perdi e agora já não consigo mesmo chegar até aí. E só precisaria um passo. Estou aqui, no extremo sul.
A linha imaginária, os mapas me impedem. Eu seria considerada uma invasora – e só queria mesmo poder te beijar.
Quem inventou esse absurdo de divisa? Quem??
Sinta-se beijado além das linhas que nos separam e condenam.
Por Sócrates
A saia da moça revelava o interior dela. Logo abaixo do umbigo. Os rapazes deitavam no chão, remexiam as cadeiras, se contorciam para enxergar até a alma da garota. Alguns diziam:
- Vou para o inferno por ela.
- Até o Alasca.
- Ai meu Deus!
Na esquina, logo após o bondinho passar, uma brisa, daquelas do sul, soprou como se advinhasse os desejos viris da moçada. Alguém arriscou:
- Esse vento é macho.
- Bonitinha mais ordinária.
- Nossa Senhora!
Sem graça, a donzela virou a esquina e foi pega de surpresa pelo namorado. Por acaso você está na Bahia para andar deste jeito na rua.
- Você tá me chamando de quê?
Sem graça, o gaúcho tentou explicar mais só piorou a situação.
- É que na Bahia as mulheres são mais calorentas.
- Sulista filho da puta.
- Splac!
Por Mariângela
Na rosa dos ventos que revoltam seus cabelos
descobri os pontos cardeais, generais de minha vida.
Ao norte, o brilho forte que me acorda de pesadelos mundanos.
Ao leste, o riso agreste a secar as lágrimas sobre leites derramados.
Ao oeste, o peito largo onde encolho os meus sonhos para caber no seu pulsar.
Ao sul....ah, ao sul... é para onde vôo, me encaixo, modelo minhas formas
e espero, sem pressa, todo o inverno passar.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É...ESTURRICADO

Por Cristina
Viu um pedaço queimado, seco, acabado, jogado. Não sabia o que era, chutou. A coisa gemeu. Assustou-se, correu, parou, voltou, cutucou com o pé. Nada... Então, chutou longe. Um grito acompanhou o vôo. Assustado correu, o mais que pode. Ao longe parou, peito arfando, coração disparado e,não resistindo, mais uma vez voltou, procurando pelo chão. Andou bastante até que escutou o gemido. Foi atrás com medo, mas foi, devagar. Viu a coisa, quieta, no chão. Parou ao lado “geme agora, geme!”. Silencio. Abaixou-se para ver melhor e foi chegando cada vez mais perto. Uma coisica de nada! Perdeu o medo. Cutucou com o dedo, pegou, entre o polegar e o indicador. Foi então que a coisa soltou uma labareda e gritou. Ele também gritou, largou a coisa, os dois dedos pegando fogo, tentou apagar socorro, socorro, os dedos queimando, correu, mas como correu!!! Quando conta ninguém acredita nem quando como prova, ele mostra o polegar esturricado.
Por Gabriela
Tenho reentrâncias e cavidades. E elas suam. Às bicas.
Me sinto pegajosa, e minha pele é só um esturricado difícil de percorrer.
Procuro não me mexer pra não gastar energia. Procuro não respirar.
Procuro um sopro de ar que não esteja mais quente que a sopa em que se transformaram meus neurônios.
Um peixe jogado pra fora do aquário, a imagem que me vem.
Mas não me debato, não consigo.
Abro e fecho a boca, sem parar. Rápido, lento. Até parar de respirar.
Por Mariângela
Enquanto eu me queimo de raiva,
dou socos no ar e deixo esturricar meu humor,
ela permanece intacta, com uma brancura irritante
e uma calma que me intriga.
Vive na superfície, porque eu é que sou o submundo,
o avesso em pêlo, que me desisto por dentro.
Devo a ela minha vida, o dar certo todo dia,
o acordar e achar alguma graça,
acreditando que tudo vai mudar.
É a ela que me submeto, adoro e venero.
É ela que me aceita e me tolera.
É ela, só ela.... minha infinita paciência.