Diariamente, um desafio é lançado: uma palavra, apenas uma, que seja capaz de mexer com a criatividade desses oito escritores. Eles deixam os dedos correr no teclado, livres e descomprometidos. O resultado? Uma poesia, uma crônica, um haikai, um conto... Enfim, o que a inspiração deixar. O blog é isso, um convite à criatividade, provocada todos os dias, no finalzinho do expediente.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... SIMULACRO

Por Gabriela
Há sim, estas cascas. Simulacros.
Inteira, quase nunca deixo me ver. E pra alguns muito poucos.
Justamente pra não ser falsa, pra abandonar de vez as máscaras que, por muito, usei.
Eu me embalo em alguns tecidos, véus e cores, mas sou mesma – sempre. Pode ter certeza.
Se te sorrio, é sorriso. Se te beijo, amor. Não há muita surpresa, mas toda verdade.
Não me espere carinhos mornos e disfarçados. Não me espere dulcíssima. Não sou eu.
Me respeite e aceite que te devolvo o mesmo.
E seu eu for, não me procure.
Por Mariângela
No meu altar tem um simulacro.
Sou eu pagã, em vestes negras.
Olho no espelho e me convenço
de que só eu assim me vejo,
enquanto todos, tão cegos,
não me percebem essa.
O que vêem é uma outra,
porque insistem, me inventam.
A outra em mim odeio.
A outra é que tanto amam.
Da outra quero me livrar.
Por Cristina
Apesar do sol que entrava pela janela, sentia frio. Na poltrona, corpo magro, cigarro abandonado na mão direita, olhar perdido, era um daqueles dias (como se chamavam mesmo? Dias brancos? Dias neutros? Dias nada?), Em que nenhum sentimento parecia se fazer presente e somente o abandono tomava conta de tudo. Som baixinho escutava Ruth com Egberto Gismonti, nome que o fazia lembrar outros nomes já tão longínquos, nomes que se haviam tornado um tão pouco, um quase nada, idos, findos, vez em quando ainda re-mexiam, re-moviam vácuos de tempo e, sobretudo re-feriam o corpo todo que passava a doer e traziam de volta o sentimento escondido em pensamentos que acreditava imbuídos no nada pensar, e causavam toda a re-viravolta dolorida e então vinha maldosamente o som de Ella Fitzgerald com o “Mean to me”, can’t-you-see-what-you-mean-to-me?
Levantou-se, apagou o cigarro e fez um café. Lembrou-se dela sentada na mesinha redonda, pronta para trabalhar, tomando café com ele, lágrima escorrendo na face, ela não gostava de ir embora, mas mesmo assim ia e sempre teimava em não voltar porque era mulher de sentimentos que de tão profundos ficavam leves demais. Ele nunca entendera como sentimentos podem ser assim, como um rufar de vento e foi então que se deu conta do vento que fazia a janela bater de levinho, apesar do sol (a mulher dos sentimentos de vento cismava em não gostar de vento e sempre fechava as janelas, mas gostava de olhar o mundo através dos vidros principalmente quando havia sol).
Daquela janela ele lhe mostrara as árvores, os caminhos que percorria todos os dias e lembrava-se de um (a musica era Luna Rossa com Caetano Veloso - porque sempre havia uma musica), em que olhando pela janela haviam conversado muito com as taças de vinho na mão e anoitecera, depois amanhecera e quase anoitecera de novo, a musica se repetindo ao longe (ele gostava de musica ao longe) e haviam adormecido no sofá, copos no chão.
Respirou fundo e as viu chegar, uma a uma, as andorinhas, pousando no parapeito da janela, olhando para ele (ah Luna Rossa!), acreditou que eram as mesmas daquele dia em que ele dissera olha, olha, vieram te ver, ela sorrira abrira a janela bem devagarinho, estendera a mão, ela queria encostar seu rosto, quase conseguiu, uma mansinha chegou bem pertinho do rosto dos dois, roçou a asinha, as peninhas azuis tocando nas faces enquanto de tão emocionados cada um derramava uma lágrima alegre e se abraçavam vendo a andorinha voar e sabiam que nunca mais esse dia seria esquecido e então escutou Ella Fitzgerald que teimava em machucar e cantava “when your love has gone”.
Sentou-se na poltrona, acendeu um cigarro e voltou ao seu dia como se chamava mesmo? Dia branco? Dia neutro? Dia nada?

segunda-feira, 23 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É...ÊXODO

Por Gabriela
Saíram de mim as chances todas de brotar.
Nem só aridez. Nem só descaso.
Houve ameaças de verde, suspeitas de colheita, embriões de frutos.
Vãos.
Tempo demais sem ver água, tempo de sobra pra murchar, fenecer.
Que vida é essa? Qual sina...
Lanço-me a este êxodo mas marcho sem vontade ou esperança ou corpo.
O que abandono já não sou há tempo demais.
E aonde ir não faz a menor diferença agora.
Por Cristina
Sentavam-se todos na mesma sala e na maioria das vezes nada diziam. Mas voltavam sempre, porque ali sentiam-se flutuar.
Ela preferia a musica bem alta. Gostava dos acordes que pareciam penetrar seu corpo, faziam tremer sua pele, tomavam todos os seus sentimentos.
O que gostava mesmo era de escutar e não pensar em mais nada. Só na musica, deixando que os caminhos da mente percorressem o que os acordes ditassem. E como percorriam!
Deixava-se ir pelos atalhos, pelas avenidas, pelos becos e os sentimentos iam tomando conta, um de cada vez. Não raro as lágrimas escorriam, o coração disparava, sentia dor profunda e quantas vezes jubilo, um jubilo que extrapolava e então levantava-se e dançava, dançava, olhos fechados, par imaginário ou nenhum, dançando, deixando a musica conduzir.
Nem via que havia outros ali. Provavelmente nenhum se via, todos levados pela musica que delicia que era juntar pessoas que gostavam da mesma coisa e podiam ficar assim lado a lado fazendo juntos o que cada um fazia por si só.
Quando a musica parava olhavam-se, olhos de lágrimas, olhos sorrindo, olhos tristes, olhos opacos, olhos nada, fosse o que fosse, sentiam-se todos mais irmãos. Às vezes conversavam ou apenas se tocavam e sorriam no silencio enquanto alguém colocava outra musica, às vezes só se olhavam e nada mais era necessário porque sabiam que se entendiam e sabiam que estavam juntos porque comungavam aquela entrega à musica e sabiam que seguiriam aonde a musica os levasse, todos no mesmo caminho, indo sempre para longe, cada vez mais longe, sabendo que iriam para sempre juntos, em êxodo.
Por Mariângela
Por que será que você saiu de mim?
Não quis mais explorar meus vales,
nem deitar na minha sombra morna
ou dormir na relva de meus pêlos pubianos.
Deixou para trás os campos que cultivamos juntos
entre as cobertas e sob o céu que pintei no nosso teto.
Por que me negas como se eu fosse uma terra estranha,
se foi para você que abri todas as cercas
e de você me cerquei inteira?
Não deseja mais a minha língua carinhando sua orelha,
nem minhas mãos descobrindo os teus espaços?
Por que despreza os anos luz de um amor infinito
e de uma paixão que preenche todos os vazios,
e esvazia aquilo que nunca nos teve sentido?
Me diz, me diz de verdade, responde esses porquês.
Depois, volta pra cama, traz um copo de vinho e apaga a luz.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... IMPOTÊNCIA

Por Gabriela
A corda arrebenta um dia.
A gente se arrebenta um dia. De tanto fazer esforço pro contrário.
Um conselho?
Não se deixe chegar à sensação de impotência.
Quando ela vem, é porque a corda esticou demais.
Um sopro e rompe.
E aí é estrago que nem sempre se dá pra consertar.
E machuca, ah como machuca.
Por Mariângela
A minha humanidade me incomoda.
Pareço piegas, porque quando percebo,
não sei conter o choro desse oco,
um sem fundo que me toma.
Doi demais ver pessoas miseráveis,
crianças sem destino, amores vãos,
gente que mata tanta gente,
morte em forma de indigente,
medos atordoando pessoas sãs,
violência em alguns olhos verdes,
covardia em outras iris,
alegrias tingidas por sorrisos falsos,
dentes brancos que nunca sorriem,
multidões de indivíduos solitários,
bichos que parecem humanos,
humanos com jeito de bicho,
desumanos que desamam...
Em que lugar de meu destino
perdi a capa, a espada e o elmo encantado?
Para onde foram meus super poderes imbatíveis?
Quando esqueci todas aquelas mágicas?
Onde está, meu Deus, a tal fé que era meu escudo?
Hoje só me resta esta impotência maldita!
Por Sócrates
É duro admitir, mas aconteceu. Ao longo desses 40 anos, nunca vacilei, mas, desta vez não deu. E não é culpa dela. Na verdade, na verdade, ela é novinha, novinha, aguenta qualquer um. Pode ser velho, adolescente. Pau para toda obra. Só que na hora de engatar a primeira troquei os pés pelas mãos e arranhei a marcha. Estourou o motor da minha motocicleta por causa de um descuido besta. Anos de carteira de motorista jogados fora. Jamais esquecerei deste dia. Agora sou um homem impotente.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... ALMOÇO

Por Gabriela
- Café?
- Não, hoje não. O almoço não desceu bem.
- Tava ruim?
- Não, a comida não. Alguma coisa em mim, ruim, que anda me negando os bons sabores.
- Assim como?
- Assim, como se tudo fosse mesmo, sem sal.
- Tudo?
- Tudo...
- Faz tempo?
- ...ah, faz um pouco sim. Acho que desde segunda, uma semana talvez, talvez mais...um quase muito tempo.
- Que será?
- Sede, acho. Uma sede que tenho. De tudo, não de água. De gentes.
- Sede de gentes?...Que tira o sabor de tudo?
- Tira...porque as gentes não vêm e nada me alivia a garganta...nem café, nem nada.

(...) Pausa para a digestão.
Por Cristina
Tinha vontade de conhecê-lo mas, medrosa como sempre, não demonstrou. Foram várias reuniões e a cada vez ela observava um trejeito, um jeito, alguma coisa...gostaria de poder olhar mais.
Um jeito de andar despachado, desligado, um jeito de vestir bonito, esporte, um jeito de falar sorrindo, fazendo rir, um sorriso levantando o cantinho da boca, um queixo bem feito, e quando colocava os óculos, um charme!
Um dia tirou o casaco do sempre terno no meio da reunião,calor, falou, ela se importava? Não, absolutamente, ficasse à vontade. O jeito de tirar o paletó e colocar no espaldar da cadeira, o jeito de levantar, o corpo ainda bonito apesar da madurice, parecia praticar algum esporte, ficou curiosa mas não perguntou, falou das cifras, perguntou valores.
Houve uma ocasião em que se pegou olhando as mãos dele, depois olhando a boca, lábios, ai a boca, os lábios, perdeu-se um pouco, escapou-lhe o assunto, será que ele percebeu? Lembrava-se também do dia em que se levantara para pedir um café e ao voltar viu como ele a olhava, ou será que era impressão? Sorriu, fingiu que não viu, o café já vem, vamos continuar?
Ali ele na sua frente, então ta, marcamos a próxima para a semana que vem? E então ele disse: e o fim de semana? Hã? Como? Isso, o fim de semana? Podemos nos ver? Tremeu. Nos ver? Que tal almoço?
Quase tropeçou, coração disparado, ele percebeu, segurou seu braço.
Então ela olhou bem nos olhos dele e sorriu. Almoço!
Por Mariângela
A praça de alimentação do shopping estava cheia.
De bandeja na mão, ela seguiu andando, à procura de um lugar vago.
Foi e voltou algumas vezes e nada. Tudo ocupado.
Num canto, um rapaz, com seus 30 anos, comia sozinho, numa mesa para quatro.
Meio tímida, mas com fome e pressa, vendo que sua comida esfriava, aproximou-se e pediu:
"Posso sentar aqui?"
Ele olhou meio surpreso, mas autorizou-a com um sinal de cabeça.
"Obrigada", ela sussurrou enquanto ajeitava-se na cadeira.
Os olhares se cruzaram entre algumas garfadas.
O mais intenso foi quando ela levou o copo de suco à boca, sorvendo os goles com vontade.
E ele garfava pedaços de abacaxi enquanto correspondia àquela sutil paquera.
Tudo não durou mais de 20 minutos, e ele prolongou sua estada porque acabara de consumir seu PF fazia algum tempo.
Ela levantou-se jogando os cabelos para trás, caprichou no sorriso e soltou um atropelado: "Tchau, obrigada".
Ele respondeu com um gesto com as mãos, meio sem tradução, e devolveu outro sorriso: "Imagine! De nada!"
E a vida continuou, cada um na direção de seus carros, em andares diferentes do estacionamento lotado.
Ela abriu a porta, sentou-se contrariada frente ao volante e soltou uma frase solitária:
"Essa vida fast food é uma merda!"

quarta-feira, 18 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FERIDA

Por Gabriela
Há bem pouco tempo ando tirando os band-aids da alma.
Estavam lá, molhados e feios, já quase desgrudando, soltando aquela colinha chata.
Acostumados à anatomia, já sem serventia.
Não lembranças das feridas, nem cicatrizes.
Como se ali, nada nunca tivesse sangrado.
Há bem pouco, muito pouco tempo não me machuco.
E saber inúteis os curativos, é paz.
Por Mariângela
Hoje eu fui para o divã do analista.
Faço isso uma vez por semana.
É minha segunda vez em 47 anos.
A primeira durou 12 - os mais difíceis e melhores de minha vida.
Não tinha divã. Nesta fase, há 4 meses, tem.
Deitada ali, olhando para mim mesma, sinto-me ferida aberta.
Como se mergulhasse em um tonel de água oxigenada, sabe?
Que borbulha onde falta pele nova, para que tudo seja limpo.
Volto no tempo e me dou conta de como algumas coisas ainda doem, mais do que pensei.
Mas é só no divã que vivo a sensação de estar sangrando em meus cortes.
No dia a dia, parece que a morfina da rotina mantém tudo adormecido, quase imperceptível.
Só que às segundas-feiras, volto a meter o dedo em cada ferida.
Cutuco, sofro, repenso, choro, como a viúva que perdeu seu melhor parceiro,
e depois descobre que, no fim, ele era um grande sacana!
Saiu cansada, mas um pouco mais cicatrizada nos pequenos buracos negros que abri em minha alma.
Ainda sou colcha de retalhos. Há coisas que não se encaixam. Há dores que não cessam.
Só que hoje, ali deitada e entregue à minha vida, me sei por inteiro, cada parte que ainda desconheço
e cada espaço que preencho de sabedoria ou da teimosia de quem ainda não se perdoa.
Não sei, mas desconfio, que estes poucos meses serão os melhores e mais difíceis de minha vida...
Por Cristina
Abri a janela, amanhecia o dia, uma borboleta branca entrou. Voou pela casa, visitou os cômodos e, decidida, pousou no sofá.
Cheguei perto de mansinho, deixou que eu me sentasse ao lado, fiquei, ficou, ficamos paradas, cada uma com suas recordações.
Vez em quando balançava as asinhas e eu pensava não vá ainda e acho que escutava porque pacientemente ali ficava, alimentando meus pensamentos que voavam, a ir e vir.
Então mexeu-se novamente, levantou um pequeno vôo e, decidida, pousou delicadamente em mim; branca, leve, arrojada, linda, e de tão linda remexendo lembranças e de tão linda abrindo, de novo, a ferida.
Tenho saudade de ti. Ai que saudade dolorida tenho de ti!!!!

terça-feira, 17 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FÍSICA

Por Mariângela
Sempre sofri para ir bem numa matéria da qual não sei nada. E olha que dizem que tudo é física. Desde quando acelero meu carro até no engate da ré de minha consciência nas horas de arrependimento.
De física só acho graça na língua que Einsten descabelado mostra na foto emoldurada e pendurada nas paredes de bares, casas, puteiros, restaurantes, salas de espera, postos de gasolina e capas de caderno.
Só isso tenho a dizer. O resto eu decorava, pra ir bem na prova. E quem tudo decora tudo esquece.
Eu esqueci a física e ela me esqueceu. Melhor assim.
Por Cristina
É uma questão física.
Um calor que se espalha pelo corpo, uma vontade de contemplar o horizonte.
Depois é como se uma nuvem tomasse conta dos momentos, a mente floreia cenas, perfuma quadros, apaga imperfeições.
O coração pula, a mão sua e treme, a boca sorri sem esforço, os olhos ficam semi-cerrados, lágrimas alegres correm, emoção toma conta.
E então não vejo mais nada.
Pulo do trampolim, mesmo sem saber se o vazio é suficientemente fundo, se há braços que amparem ou se vou me esborrachar.
Pior, é que mesmo quando me esborracho, nunca acho que seria melhor não te pulado!
Por Gabriela
Um dos meus professores de Física era ruivo.
Tive uma paixonite por ele, na época do colegial.
Ela não era bonito, mas era ruivo. Talvez isso tenha me atraído.
Ou aquela paixão dele e graça ao ensinar. Ele era bem humorado, ‘amigo’ dos alunos, sem perder a autoridade.
Um cara bacana, muito bacana.
Ninguém entendia minha atração, diziam que ele parecia um duende de conto de fadas.
Eu não ligava. Talvez porque também não entendesse o que nele, me atraía.
Foi único período em que a matéria fez algum sentido pra mim e tirei boas notas.
Depois dele, a Física voltou a ser quase sempre mistério, ainda que ternas lembranças tenha deixado.
Eu acho que a culpa foi mesmo daquele cabelo ruivo dele.
Por Sócrates
Os apóstolos estavam exaustos. Joga a rede para cá, joga a rede para lá. E o Cristo lá, deitado, na maior. Um pouco ressabiado com aquela situação desafortunada, o Pedro enfiou na cabeça de nosso Pai, Filho e Espírito Santo um balde dágua. Misericórdia, é o Mar Vermelho", gritou o Salvador. Que Mar Vermelho o quê, disse Pedro. Que brincadeira é essa rapaz, eu Sou o início, o meio e o fim. Deixa de conversa Jesus, até agora eu só vi a tal da água virar vinho e na verdade ainda não comi muito bem essa história. O pessoal já tava um pouco pra lá de Bagdá e acho que nem perceberam o que ocorreu de fato. E o que ocorreu Pedro, você dúvida da minha condição divina. Duvidar até que eu não duvido não, mas, se vossa santidade quiser que eu relate sobre aquele pó misterioso, posso falar agora mesmo. Vossa santidade é o papa, é bom você ficar no seu lugar seu pescador de m...olha...escute uma coisa...você vai me trair três vezes...Se eu te contar o que o Judas tá negociando você se daria por satisfeito. É o seguinte Eu sou o início, o meio e o fim, a gente tá sem peixe e, portanto, não vai ter Santa Ceia. E eu com isso. E eu com isso, ora mais essa. Meu Salvador, convenci esses onze homens que você era o cara, que a gente ia deixar de pagar os impostos de César e o escambal e o nosso Salvador não ajuda nem pescaria. Olha...aquela história de repartir o pão e o peixe para um milhão de pessoas é conversa. De tanto repetir aquela história até o Senhor já se convenceu. Olha Pedro, veja só, deixa de zoeira no meu ouvido viu. Olha, já fui. Vai para onde, não estou física não é, só fica atrás dos livros sagrados, dá nisso. E Cristo se arribou em cima do mar enjuriado. Mas rapaz, você tá andando, perdão, perdão, o Senhor tá andando em cima da água. Agora dá a rede para cá que vou pegar esses peixes para vocês seus hereges, homens de pouca fé. Onde já se viu rapaz, duvidar de Deus. E um mundaréu de peixes encheu a embarcação. Empolgado com a andança e o milagre, Pedro fez um pedido para Jesus. Deixa eu andar também na água. Venha, venha. No inconsciente, Jesus pensava, Venha miserável, venha. Depois de beber meio quilo de água, Jesus pegou Pedro pelos braços. Tá pensando que isso é para qualquer um é, agora vamos que temos que realizar a Santa Ceia, ser crucificado e depois ressucitar. E tudo isso em apenas dez páginas de um livro que tô pensando em chamar de Manifesto do Partido Comunista, mas também estou pensando em um nome mais curto, Bíblia.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... TORMENTA

Por Gabriela
E o que mesmo sobrou depois de tudo?
Do estômago embrulhado depois do beijo arrancado à força quando já não era amor mas desespero de dois que não sabem como se largar mesmo depois do destroçado fim, início de começar a tomar lugar o mais puro e perigoso desprezo um pelo outro?
O que? Depois do devassar de toda intimidade, da exposição crua, do percorrer dos avessos até a exaustão? Depois de saber do outro até o que o próprio nega? E escarafunchar, cutucar, achar até o que não se sabia vivo? Sobra o que?
Amor nunca foi, que não é isso.
Tormenta. O fantasma de não se poder sozinho, de não se olhar por dentro e precisar sempre um outro – de muleta, de consolo, de espelho, de saco de pancada.
Claro que não, claro que não sobra nada depois disso.
Os cacos, reais, são de carne viva. Mas os sentimentos se preservam intactos, porque nunca houve nenhum.
Nenhum.
Não há restos se houve nada.
Por Mariângela
Sei que ainda viverei muitas tormentas,
porque sou barco sem vela, leve e frágil.
Mas só uma vez fiquei à deriva.
Foi quando descobri que ser nau sem rumo
é a solidão que me tornou náufraga,
afogada num imenso vazio, ancorada no meio do nada,
mesmo sabendo de um alguém que se dizia ao meu lado.
É a solidão perversa do não ser amada.
Por Sylvia
Ele gosta de se deixar levar. Qualquer corrente de ar, brisa ou aragem lá está ele, no ângulo certo que o suspende do chão e aí flana com gosto e sem culpa; mas gosta ainda mais de pé de vento ou rajada das que levantam pó, sente emoção forte, frio no estômago, arrepio na pele. Conhece todas as manifestações do ar em fúria: rajada, furacão, turbilhão, tornado, até redemoinho e minuano, aquele vento frio e seco que vem do sul e atravessa o país chegando até o norte. Surge gelado e penetra os ossos, trazendo o frio dos Andes. Gosta dos alíseos também, que de tão úmidos adoecem o pulmão e deixam as pessoas loucas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É...POESIA

Por Cristina
Quando olhos não brilham,
poesia?
Quando inspiração não vem,
poesia?
Quando peles não conversam,
poesia?
Quando lógicas não casam,
poesia?
Quando ilusão morre,
poesia?
Quando omissões e traições,
poesia?
Quando esperanças se acabam,
como fazer poesia?
Por Mariângela
Ele levanta e dá de cara com a avenida em ebulição.
Os carros passam, buzinam, se atropelam,
se confundem com animais na savana árida e cinza.
No vão de uma lage, ele guarda seus pertences:
a cama, um papelão duro que um dia embalou uma TV de plasma, 42 polegadas,
o cobertor todo empelotado de poeira, folhas e o que mais foi possível arrastar consigo,
a sacola rasgada CVC, com duas camisetas sem marca, uma cueca furada, um pente e um copo
e o bloco de papel e a caneta bic quase sem carga.
Consegue lavar o rosto na água que brota da parede de um viaduto por perto.
Olha de novo para o seu cenário: outros como ele, dividindo o infinito do nada.
Faz a caminhada costumeira percorrendo suas ilhas, que separam as avenidas.
Pede um trocado aqui ou ali, conforme fecha o semáforo.
Junta 3 reais que gasta com um pão e manteiga e ganha de um qualquer o pingado.
O dia passa e ele segue sem rumo, pensando porque, afinal, ele foi parar ali.
Insiste, persiste, mas não se lembra como tudo aconteceu.
Só sabe - e isso é certo - que seja lá como for, ele não pode enlouquecer
e faz um exercício diário de encontrar poesia naquilo que a vida lhe presenteia,
registrando no bloco sujo, com a caneta velha:
"comprei o pão e o homem, bom coração, me deu um pingado.
Meu olho ficou molhado, porque ainda sinto emoção.
Não tenho medo do vazio que hoje habito
só temo esquecer que ainda existo
e perder a noção, o meu colchão papelão e o que resta da minha rima
que combina lembrança com esperança,
sofrimento com cabimento, desespero com ser faceiro.
Só não sei o que será quando a tinta acabar.
Talvez, enfim, eu morra, o que combina, então, com porra!"
Por Sócrates
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.....................esperando a poesia.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... ABDOMINAL

Por Mariângela
Você me aparece
Você sempre some
Às vezes sorri
e olha de rente
eu vejo e te encaro
ou sigo em desprezo
Respiro e prossigo
seu rosto em meu beijo.
É essa a lembrança
que guardo na sala
seu quadro emoldura
meu tempo ocioso
é quando retraio
e elevo meu ventre
deitada no chão
te vendo de frente.
Por Gabriela
Começou com um pequeno desconforto. Uma dorzinha de nada.
Depois evolui para uma pontada, pontadazinha; é verdade; mais pro lado esquerdo.
Imaginou algo gástrico, já que era na região abdominal o incômodo.
Má digestão, talvez. Fígado, será?
Úlcera não, que não era no estômago, ainda que um pouco de azia sentisse às vezes.
Enjôo nenhum, mas uma tontura um dia, que a deixou branca feito cera.
Coisa estranha! Que não era de ter nada, difícil ficar doente, correr pra médico.
Talvez nervoso, cansaço. Fundo emocional – um medinho sabe-se lá do quê, porque ‘cabeça é tudo’, né?
Ia deixar passar mais uns dias, não havia de ser nada – se piorasse, iria ao médico.
Mais uns dias assim, meio chatinha, mas levando.
Então quando teve que correr pro banheiro, tonta de náusea e enjôo, quando sentiu o cheiro do perfume delicioso do marido, ficou preocupada.
Xiiii! Será? ‘Barriga, barriga mesmo?’
Correu pra farmácia, descabelada e branca, zonza e esperançosa. Será?
Ah, seria tão bom se fosse sim, barriga...

quarta-feira, 11 de março de 2009

A PALAVRA DE HOJE É... FEIJÃO

Por Gabriela
Tava desenxabida. Sabe desenxabida? Essa coisa nem cá nem lá? Um morno chato, uma vontade manca, um humor omisso. Mais pra reclamar da vida, pra implicar com a colega chata que faz cara de Poliana a existência inteira e tem voz de quem está rindo indeterminadamente mesmo quando o assunto é dos mais sérios e pentelhos (sim, concomitantemente). E dona daquela impaciência crônica que faz acreditar que o mundo se transformou num grande complô pra te aporrinhar, estragar o dia, lembrar que você nem deveria ter levantado da cama, quiçá sair de casa! Então, desenxabida e irritada, querendo morder o primeiro infeliz que ousasse cruzar seu caminho com aqueles risinhos bobos na cara. E eis que a amiga chama pro almoço. E além dela, mais duas amigas. E a caminho do restaurante, aquela falação meio raivosa contra as chatices do dia a dia, as pessoas e suas incongruências, as falsidades, politicagens...até diluir, virar risada, sair como desabafo e ficar infinitamente minúsculo, quase pó. E somada a isso, na fila do self-service, aquele feijão preto delicioso, luzidio, cheirando carne gorda e tempero de cozinheira de mão cheia! Fez esquecer tudo, aquele prato de feijão no almoço, cercado de amigas com quem se pode compartilhar coisas da vida, quaisquer. E na volta ao escritório, depois do café, só conseguia pensar que tinha sido bom ter saído da cama de manhã cedo.
Por Mariângela
Separando os grãos, ele viu um muito diferente.
Pensou, a princípio, que estava estragado.
Mas analisando de perto, apalpando e sentindo o cheiro,
se deu conta de que era um feijão raro, que brilhava contra a luz.
Não colocou com os outros, nem cozinhou-o em separado.
Achou tão especial e único, que guardou-o dentro de um vidro,
numa prateleira qualquer do armário da cozinha.
Anos se passaram, até décadas, e o feijão raro ali, no vidro.
Quase todo o dia o homem admirava e contemplava o seu achado.
Ria-se ao pensar que ele era dono de um feijão inigualável. Ele, só ele.
Mas então o homem morreu, foi velado e enterrado.
No testamento, os bens repartidos entre seus entes não citavam o feijão.
A casa foi vendida e a nova família encontrou o vidro solitário, na prateleira.
Olharam, analisaram, cheiraram, apalparam
e não viram qualquer sentido naquele feijão.
Acabou triturado na caçamba do caminhão de lixo.


Por Cristina
Destampou a panela e colocou o rosto sobre o vapor. Se ficasse ali algum tempo será que as gotas de suor cairiam sobre a comida, la dentro? E as pessoas, perceberiam o gosto da sua pele entre os temperos? Que nojo!!! Afastou-se mais do que depressa.
Que maneira mais estranha de encher a cabeça para passar o tempo!
O ato de cozinhar tornara-se mecanico demais e subterfúgios como este eram necessários para que não enlouquecesse por completo.E se espirrasse um pouco de perfume dentro da comida, bem pouco, será que faria mal para as pessoas?
Sim, devia confessar que um pouco desnorteada, já estava. Como não estar, fazendo aquela mesma coisa todos os dias? Fazia, eles comiam, ela lavava; fazia de novo, eles comiam, ela lavava; no dia seguinte começava tudo de novo.
Não é que não gostasse de cozinhar,mas há muito não sentia prazer algum. Precisava de novidades. Fazer uma nova receita? De que adiantaria? Juca só comia arroz se acompanhado de feijão; Cibele não gostava de salada; Carlota só comia carbohidrato; ninguém gostava de peixe; macarrão só com molho de tomate; bife só muito bem passado; batata sempre....Tudo muito cansativo. Fora os temperos: sem salsinha para um, com muito louro para outro, nada de orégano, só uma pitada de pimenta, bem pouco...
O ato de cozinhar tornara-se tão morno, tão desprovido de elogios....
Foi então que teve a idéia. Modificaria as coisas. Queria ver se não reparariam. A cada dia não faria para um deles bem aquilo que repetidamente comia, dia após dia. Ficou contente! Começaria hoje. Isso. Feliz começou a descascar batatas!
Hoje Juca, se quisesse arroz, teria de comê-lo sem o seu feijão.